São Paulo – Após quase três anos, o deputado de primeiro mandato e campeão de boxe Acelino Popó (PRB-BA) ganha projeção em uma área espinhosa: a do marketing multinível, cuja distinção com o crime de pirâmide financeira parece não estar bem delimitada no Brasil (veja as diferenças).

Popó caiu no assunto de paraquedas, depois de ser procurado, no gabinete e nas redes sociais, por dezenas de vendedores das empresas desesperados com o bloqueio dos bens.

Desde junho e julho, respectivamente, TelexFREE e BBom estão proibidas de seguir com suas atividades até que a justiça decida se ambas são mesmo mantidas pelo esquema de pirâmide, como acusa o Ministério Público.

O ex-lutador é agora presidente da Frente Parlamentar sobre Marketing Multinível, criada oficialmente nesta quarta-feira na Câmara dos Deputados. O grupo quer regulamentar a atividade no país.

Mas as empresas envolvidas em suspeitas perderam a chance de ter um aliado inconteste na presidência da Frente. Em pouco mais de um mês, o discurso de Popó mudou: passou de apoio ao desbloqueio para o pedido de uma CPI que apure melhor a situação de cada uma delas.

“A gente vai estudando. Se a justiça bloqueou, é porque tem alguma coisa errada”, falou em entrevista à EXAME.com.

Na conversa abaixo, o deputado conta ainda sobre as decepções com a Câmara dos Deputados, onde tentará ficar em 2014. “Às vezes as coisas são tão lentas naquela Casa que dá vontade de socar alguém”, afirmou, mostrando que mantém hábitos de boxeador.

EXAME.com - Como o senhor se tornou presidente da Frente Parlamentar sobre Marketing Multinivel?
Acelino Popó -
Eu sabia o que era (o marketing multinível e as empresas suspeitas de pirâmide), mas não estava ciente do prejuízo que algumas pessoas estavam tendo, vendendo até mesmo casas e carros. Tornei-me presidente da Frente justamente pela dificuldade das pessoas que me procuraram, tantos nas redes sociais quanto no gabinete. Muitos pediam ajuda. Quem entrou há menos de três meses e tentou tirar lucro, perdeu. E venderam todas as economias que tinham. A gente vai tentar regulamentar essa atividade no país, mas de maneira correta.

EXAME.com - O senhor mencionou que quer uma CPI do marketing multinível. Para investigar exatamente o quê? Em que ponto está a criação dela?
Popó –
Na próxima terça-feira (dia 8), chego a Brasília e já começo a coletar as assinaturas (é preciso o apoio de pelo menos 171 parlamentares). Depois disso, tem uma burocracia. Quero entrar com uma CPI para fazer uma auditoria. Onde está esse dinheiro? É pirâmide? Tem produtos sendo vendidos? As pessoas quando compram recebem o produto ou estão os vendo apenas nas nuvens? Será uma coisa séria para investigar as empresas. Todas elas. São mais de 100 no Brasil. As mais famosas são a Bbom e a TelexFREE.

EXAME.com - Em uma audiência pública em agosto, o senhor se manifestou a favor do desbloqueio das empresas, alegando que milhares eram prejudicados. Nesta semana, na criação da Frente, esse discurso não apareceu. Afinal, a Justiça deveria desbloquear os bens?
Popó –
A gente vai estudando e sabendo mais sobre o caso. Se a Justiça, assim como os promotores e procuradores de Acre e Goiás, resolveu bloquear os bens, é porque tem alguma coisa errada. Não sou jurista, estou me aprofundando e passei a entender que, se tiveram liminares bloqueando bens em alguma delas, tem algo funcionando errado.

EXAME.com - O senhor já disse que no processo da TelexFREE no Acre, a conta não fecha. A que se refere?
Popó –
Bem, diz-se que existem 660 milhões bloqueados de uma das empresas. E tem um milhão e meio de divulgadores. Dividido, dá mais ou menos quase 500 reais por pessoa, mas teve gente que entrou com mil, 10 mil, 100 mil... A contabilidade é que não bate com dinheiro que as pessoas colocaram lá (caso a TelexFREE seja condenada, terá de devolver os valores investidos pelos divulgadores). Mas também tem gente do meio para cima que já tirou muita grana. A Frente ainda vai fazer audiências públicas e convidar a juíza (Thaís Khalil, do Acre) e as promotoras. Quero saber qual foi a tese. O que quero é ouvir.

EXAME.com - De prático, quando o senhor vislumbra a conclusão do projeto para regulamentar o marketing multinível?
Popó –
Tem coisas rápidas e outras lentas na Câmara. Espero que isso não esteja entre as lentas. Mas às vezes as coisas são tão lentas naquela Casa que dá vontade de socar alguém.

EXAME.com – Já se vão quase três anos de mandato desde a estreia. Como vê o período?
Popó –
Eu vi lentidão, tive várias decepções, mas também vi tantas coisas e projetos bons serem aprovados. O problema é que o impasse é muito grande. Tudo é travado. Também me decepcionei com o PT, que é dos trabalhadores, mas não trabalha para os trabalhadores. Partido não usa a sigla que coloca no peito.

EXAME.com – Qual foi a maior decepção com o PT?
Popó –
A regulamentação do MMA. O deputado José Mentor (PT –SP) é contra esse projeto (Popó apresentou texto que regulamenta a profissão no Brasil. Mentor que proibir que as lutas sejam exibidas em TV aberta e fechada). Quem paga as lutas é a televisão. Patrocinador só existe se tiver TV. E ele quer que a TV não mostre as lutas, o que, na prática, acaba com tudo. Quando a gente quer um projeto para regulamentar um dos esportes que mais cresce no mundo, vem um deputado dizer que não deve acontecer nem ser visto, com tanta coisa que passa em novelas e jornais.

EXAME.com – O senhor aprovou algum dos projetos que propôs?
Popó –
Dos vários que botei, só um projeto de lei foi aprovado, na Comissão de Ciência e Tecnologia. Foi até rápido e fiquei feliz. Depois vai para plenário, mas vamos ver quando. É assim: dentro do chip celular de qualquer operadora terão que vir salvos todos os números de emergência, como defesa civil, Samu e bombeiros.

EXAME.com - O que planeja para 2014? Vai continuar no PRB?
Popó –
Meu plano é continuar na Câmara e estar lá combatendo. Infelizmente eu, Romário e Danrlei (ex-jogador de futebol) e o próprio Tiririca, que estamos lá pelo esporte, cultura e social, vemos uma lentidão muito grande. Mas não podemos perder para esses caras aí, os profissionais da política. Tem cara que é tão profissional que... (esboça irritação). Deixa quieto. O importante é o social.

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