Atualização: no dia 04/04/2014, o Ipea reconheceu que errou na divulgação de parte dos dados contestados abaixo. Mesmo assim, alguns dos pontos apresentados a seguir permanecem em aberto. Sobre a errata, leia "Ipea reconhece erro em pesquisa de estupro - 65% era 26%"

São Paulo - Uma pesquisa de opinião brasileira varreu o mundo, gerou resposta da presidente da República Dilma Rousseff e deu nascimento a uma grande campanha – ainda crescente - sob o nome “#nãomereçoserestuprada”. A causa: 65% dos brasileiros acreditam total ou parcialmente que mulheres que vestem roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Nas últimas 48 horas, porém, a pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres”, que virou símbolo do machismo da sociedade brasileira, tem sido alvo de contestação nas redes sociais, com uma ajudinha da opinião de alguns especialistas.

EXAME.com selecionou os três principais argumentos apresentados que questionam o preocupante panorama mostrado naquela pesquisa e noticiado neste mesmo site há uma semana

Isso teria força para mudar a opinião dos brasileiros desde que os resultados vieram à tona? Abaixo, o Ipea diz “não” ao defender sua metodologia.

Os sinais preocupantes, de qualquer forma, continuam por aí. A própria criadora da campanha “Não mereço ser estuprada”, a jornalista Nana Queiroz, têm recebido ameaças – de estupro – pelo Facebook desde que postou sua foto na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

1) Metodologia

Pesquisas como a do Ipea entrevistam um número limitado de pessoas. Depois, a opinião delas é vista, de certa forma, como sendo também a opinião do Brasil. Isso é feito em levantamentos de padrões de consumo, pesquisas eleitorais, etc.

“Quando você faz uma pesquisa aleatória, mais ou menos a participação de cada grupo dentro da mostra tem que corresponder à participação desse grupo na população em geral”, afirma Adolfo Sachsida, economista que já trabalhou na Diretoria de Macroeconomia do IPEA, em um vídeo no YouTube.

No Brasil, 49% das pessoas são homens; 51%, mulheres. Entre os entrevistados pelo Ipea, porém, 66% eram do sexo feminino.

A causa, segundo Adolfo – que diz já ter participado de pesquisas semelhantes do instituto em outros momentos – é que o levantamento é feito em horário comercial durante a semana. 

“É a babá, é a faxineira, é a empregada (que está em casa)”, afirma ele. “Não dá para inferir dessa pesquisa resultados sobre a população brasileira”, diz.

Segundo Sachsida, a representação por raça na pesquisa também está equivocada.

Resposta do Ipea: o instituto não se pronunciou especificamente sobre porque as mulheres estão super-representadas, mas negou que a pesquisa ocorra apenas em horário comercial. 

“Trata-se de um questionário aplicado de forma presencial, em domicílios. Somente um morador daquele domicílio selecionado pode responder. Foram aplicados 3.772 questionários em 211 municípios de todas as Unidades da Federação. O questionário não foi aplicado apenas em horário comercial. Os pesquisadores atuaram em períodos de até 12 horas diárias, inclusive aos sábados, domingos e feriados”, respondeu o instituto por meio da assessoria de imprensa.

2) Possíveis perguntas enviesadas

Ouvido pelo portal R7, o economista Marcos Fernandes, da FGV, criticou a formulação de parte das 25 perguntas (veja 16 delas).

Primeiro, porque pesquisas como essa não deveriam, em sua avaliação, ser pouco exatas ou repetir bordões, como foi o caso da afirmação “roupa suja deve ser lavada em casa”, que teve a concordância de 89% dos brasileiros.

“A pessoa dizer sim não significa que não denunciaria se o homem espanca a mulher. Existem problemas na formulação das perguntas que podem enviesar a resposta”, disse ao R7.

A falta de especificidade pode ter atrapalhado também a pergunta que teve mais destaque no estudo: “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Segundo Fernandes, ela pode ser entendida com outros significados. O colunista de Veja.com, Felipe Moura Brasil, fez uma coletânea de manchetes que usam a palavra atacar sem ser no sentido de “estuprar” (veja foto no Facebook).

Diz o Ipea: “Há alguma margem de interpretações diferenciadas para as frases. Por isso a importância do pré-teste, que foi realizado para reduzir erros. Por exemplo, a frase “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupro”, que teve 58,5% de concordância, foi pré-testada, é mais explícita e deixa menos margem à interpretação dúbia”.

3) Respostas aparentemente contraditórias

Questionados, 91% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que “homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”.

E 65% discordaram de que “mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade”.

Para alguns, é difícil de juntar esses resultados aos 58% que estão de acordo com a afirmação ”se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”.

O Ipea deu sua visão deste paradoxo no próprio relatório.

“A população ainda adere majoritariamente a uma visão de família nuclear patriarcal, ainda que sob uma versão contemporânea, atualizada. Nessa, embora o homem seja ainda percebido como o chefe da família, seus direitos sobre a mulher não são irrestritos, e excluem as formas mais abertas e extremas de violência”, escreveu o Instituto.

A assessoria de imprensa do Ipea afirmou hoje ainda que “os resultados da pesquisa devem ser analisados na sua totalidade, e não pergunta a pergunta”.

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