São Paulo – Depois de receber críticas por contabilizar como sendo da classe média todo brasileiro cuja renda familiar per capita esteja entre R$ 291 e R $1.019, o governo deu hoje uma resposta oficial aos comentários negativos. Usou três argumentos. O primeiro deles: que rico no Brasil quer ser percebido como classe média, “por mais incoerente que isso possa parecer”.

Em relatório divulgado hoje, a Secretaria de Assuntos Estratégicos, ligada à Presidência da República, afirma que a discussão é complicada porque vem acompanhada de valores, preconceitos e auto percepção.

“No Brasil, fazem parte dos 5% mais ricos todos aqueles em famílias com renda per capita acima de R$2.400 ao mês e muitos membros desse grupo se consideram parte da classe média”, diz o texto.

O governo usa a Estatística para rebater os críticos e defender que não se pode subir o limite atual do que é considerado classe média.

“Seria impossível conceber qualquer divisão da população em três classes de renda (baixa, média e alta) em que os 5% mais ricos estivessem fora da classe alta”.

O governo federal vem propagando a bandeira de que o Brasil se tornou um "país de classe média" - quase 40 milhões de pessoas entraram no grupo nos últimos 10 anos. A fatia abocanhada pela classe chega a 52% da sociedade.

Mas recebeu críticas de que estaria abrindo demais o critério para se beneficiar nas contas. E é contra essa visão que o documento divulgado hoje apresenta argumentos.

A resposta do governo, inclusive, ecoa a visão do Instituto Data Popular, que estuda a classe C.

Em entrevista a EXAME.com em novembro do ano passado, o sócio-diretor do instituto, Renato Meirelles, afirmou que apenas 15% dos mais ricos do Brasil se colocam no topo. O resto acha que é da classe média ou, pior, da baixa mesmo.

“O mundo corporativo é muito autorreferente e acha que todo mundo é classe média. Que rico é apenas o Eike Batista”, constatou então Meirelles, quando o bilionário carioca ainda figurava como o mais rico do país.

As outras duas razões
A segunda razão para o número parecer baixo, de acordo com o governo, é que o uso dos dados do IBGE, através da Pesquisa Nacional por Amosta de Domicílios (Pnad), são autodeclarados.

Assim, mesmo que de qualidade internacional, segundo o relatório, eles “não retratam a “verdadeira” renda de cada um”. Ou seja, uma família de classe média formada por três pessoas ganharia, na verdade, mais que os valores entre R$ 873 e R$ 3.057 considerados hoje.

Nestes casos, rendimentos vindos de diversas fontes, como ativos financeiros e transferências entre famílias, acabam subdeclarados.

Para provar isso, o relatório apresenta um novo cálculo usando dados tidos como mais confiáveis quando se trata de renda, da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do próprio IBGE. Com isso, a mesma família de três pessoas de classe média estaria ganhando de fato algo entre R$1.300 e R$3.700.

O governo usa o Pnad e não o POF, porém, porque ele é calculado apenas a cada cinco anos.

A terceira razão para a percepção geral equivocada, segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos, é que se tende a pensar na renda do indivíduo isolado da família.

“A família brasileira tem, em média, cerca de três membros, o que faz com que a renda per capita tenda a ser 1/3 da renda familiar total. Aqueles que inadvertidamente acham que os pontos de corte propostos são valores para a renda familiar total terão a sensação que eles estão muito abaixo do que deveriam”, justifica o governo. 

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