São Paulo/Brasília - As eleições municipais de outubro deste ano, especialmente em Belo Horizonte e Recife, podem servir de base para o presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, se descolar da aliança com o PT para um voo solo em uma candidatura à Presidência.

Com alta popularidade no Nordeste e o principal nome de uma sigla em ascensão, Campos é visto por políticos e analistas ouvidos pela Reuters como possível presidenciável já em 2014, principalmente depois que o PSB rompeu com o PT em capitais importantes, como Recife e Belo Horizonte.

"O PSB fez um movimento de afastamento do PT", resumiu o analista político da MCM Consultores Associados Ricardo Ribeiro.

As principais peças desse tabuleiro foram Recife, Belo Horizonte e Fortaleza, onde os dois partidos foram aliados nas eleições de 2008 e agora são adversários.

Até mesmo pessoas próximas à presidente Dilma Rousseff já vêem a movimentação de Campos como um sinal de que ele pode investir em uma candidatura presidencial já em 2014 e buscar o apoio do PSDB.

Os socialistas se aliam ao PT desde a primeira candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto, em 1989. Só em 2002, quando lançou Anthony Garotinho para a Presidência, o PSB não se alinhou aos petistas já no primeiro turno.

Ribeiro pondera, no entanto, que a estratégia do governador pernambucano pode ter como alvo mais adiante.

"Acho que agora o cenário mais provável para o PSB, especialmente para o Eduardo Campos em 2014, é de não sair para presidente e de continuar na base aliada petista. Acho que o projeto do Eduardo Campos é mais de longo prazo, mirando 2018", disse.

Publicamente, o governador pernambucano nega estar se posicionando para disputar a Presidência, e seus interlocutores chegam a brincar afirmando que "quem está lançando seu nome à Presidência é o PT".

Mas pessoas próximas ao socialista recorrem a uma metáfora futebolística para sintetizar a situação: Campos está em permanente aquecimento, preparado para entrar no jogo quando julgar necessário, seja em 2014 ou 2018.

O governador tem dito, em conversas reservadas, que não irá concorrer ao Senado em 2014, como seria esperado, já que deixará o governo de Pernambuco. Uma das razões seria a dificuldade que outro presidenciável e ex-governador, Aécio Neves (PSDB), vem tendo para ampliar seu espaço nacional por meio da atuação no Congresso.

A movimentação do socialista, no entanto, incomodou membros da cúpula do PT, como o presidente da sigla, Rui Falcão, que em entrevista recente afirmou que os petistas já trabalham com o cenário de uma candidatura do PSB contra o PT daqui a dois anos.

Já um ministro do PMDB, que falou à Reuters sob a condição de anonimato, avaliou que a movimentação de Campos só foi possível pela diminuição do papel de Lula na cena política nos últimos meses. O ex-presidente passou recentemente por um tratamento contra o câncer que fragilizou sua saúde.

"É um vácuo que abriu espaço para que os aliados tomassem rumo próprio", disse o ministro.

Apesar das divergências públicas entre os aliados históricos, Campos tem tomado o cuidado de evitar a ideia de que está se afastando de Lula por conta dos rompimentos de alianças entre petistas e socialistas em algumas cidades.

Em primeiro lugar, trabalhou para que o PSB participasse da coligação encabeçada pelo candidato do PT em São Paulo, escolhido a dedo pelo ex-presidente, Fernando Haddad.

No próximo domingo, Campos vai participar com Lula na capital paulista de um evento de campanha de Haddad, ao lado de dois outros governadores do PSB na região Nordeste --Cid Gomes (Ceará) e Wilson Martins (Piauí).

Ao anunciar que participaria do evento, Campos negou que se tratasse de uma reaproximação com o ex-presidente. "Nunca me distanciei de Lula. Tem gente que gostaria que isso acontecesse. Da minha parte, isso nunca aconteceu", disse, chegando a colocar na conta do próprio PT a origem das informações sobre uma suposta crise na relação entre ele e o ex-presidente.

O ato terá o objetivo de apresentar o candidato petista à comunidade nordestina em São Paulo e terá ainda a participação dos governadores petistas Jaques Wagner (Bahia) e Marcelo Déda (Sergipe).

O PSB tem quatro governadores na Região Nordeste --comanda também o governo da Paraíba, com Ricardo Coutinho. Renato Casagrande (Espírito Santo) e Camilo Capiberibe (Amapá) completam a lista de governadores socialistas.

"A ocupação de espaço no Nordeste é uma perna importante dessa estratégia do PSB de ganhar autonomia em relação ao PT. Ainda mais considerando que as principais lideranças do PSB estão no Nordeste --Eduardo Campos e Cid Gomes", disse Ricardo Ribeiro, da MCM.

Campos, que é neto de Miguel Arraes, figura histórica da esquerda nacional, tem aprovação de 71 por cento dos pernambucanos, segundo pesquisa Ibope divulgada no início deste mês e foi reeleito governador em 2010 com 82,8 por cento

O candidato apoiado por Campos à Prefeitura do Recife, o ex-secretário sem passagem eleitoral prévia Geraldo Julio (PSB), lidera as pesquisas de intenção de voto na capital, após largar com somente um dígito da preferência do eleitorado.

Mas os resultados de outubro não são suficientes para a equação de uma candidatura Campos em 2014. O cenário econômico nos próximos dois anos terá peso importante na tomada de decisão do governador, na avaliação do professor e cientista político da Universidade Federal de Pernambuco Adriano Oliveira.

Ele lembra que, se a avaliação da presidente Dilma piorar muito por conta de um maior contágio da crise da economia mundial sobre o Brasil, pode se abrir o espaço para uma candidatura do socialista já em 2014.

Oliveira acredita que um outro fator também pode ajudar Campos a se decidir pela disputa presidencial já daqui a dois anos.

"Uma radicalização do confronto entre PT e PSDB pode fazer com que os eleitores venham a optar por uma terceira via", disse Oliveira. E seria dessa forma que o PSB e seu candidato se apresentariam.

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