Por que a Justiça mandou prender Cerveró, ex-Petrobras

Investigação rastreará movimentações de Cerveró "nos últimos meses" que podem caracterizar deliberada intenção de ocultar bens adquiridos com recursos ilícitos

São Paulo – A Justiça Federal determinou à Polícia Federal que abra uma nova investigação contra o ex-diretor de Área Internacional da Petrobras Nestor Cunat Cerveró, especificamente por prática de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.

A ordem foi dada pelo juiz federal Marcos Josegrei da Silva, no plantão da Justiça Federal no Paraná.

O objetivo da nova investigação é rastrear movimentações financeiras de Cerveró “nos últimos meses” que podem caracterizar deliberada intenção de ocultar bens adquiridos com recursos ilícitos.

O juiz Marcos Josegrei mandou prender preventivamente Cerveró, acolhendo pedido da Procuradoria da República.

Para os procuradores que compõem a força tarefa da Operação Lava Jato, o ex-diretor da Petrobras continua em sua “sanha delitiva” e “parece não enxergar limites éticos e jurídicos para garantir que não sofra as consequências penais”.

A Justiça destaca que Cerveró recebeu “quantidade colossal de dinheiro ilícito”. Ele foi preso no início da madrugada desta quarta feira, 14, quando desembarcou no Rio de Janeiro de uma viagem a Londres.

Nestor Cerveró já é réu em ação penal por recebimento de US$ 30 milhões em propinas no âmbito de contratos de sondas de perfuração de águas profundas no Golfo do México e na África.

Ele também é investigado na compra da Refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). Agora, será alvo de um inquérito específico sobre lavagem de dinheiro e ocultação de bens.

“As ações levadas a cabo, atualmente, por Cerveró indicam, a um só tempo, disposição clara de não se sujeitar à lei penal na medida em que pretende evitar uma eventual apreensão de seu patrimônio e valores disponíveis em contas no Brasil, bem assim reiteração criminosa, uma vez que persevera na prática de ocultar e dissimular bens e direitos que lhe pertencem”, assinalou o juiz Marcos Josegrei da Silva, no despacho de decreto de prisão de Cerveró.

A prisão do ex-diretor foi pedida pela Procuradoria da República nos autos de um outro pedido, de quebra do sigilo bancário de Cerveró formulado pela Polícia Federal.

A Procuradoria argumentou que a simples monitoração das atividades financeiras de Cerveró “revela-se insuficiente para evitar o cometimento de novos crimes contra o sistema financeiro por ele, bem assim que prossiga se furtando à aplicação da lei penal”.

Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) revelou que em 16 de dezembro – um dia antes de a Justiça Federal receber denúncia e abrir ação penal contra Cerveró por propina de US$ 30 milhões -, o ex-diretor da estatal petrolífera tentou sacar R$ 500 mil de fundo de previdência privada com imediata transferência de titularidade para sua filha.

Para o juiz Marcos Josigrei da Silva, a conduta de Cerveró “indica o desejo claro de não se sujeitar à aplicação da lei penal e manter a salvo o patrimônio que está sob sua titularidade”.

O Relatório de Inteligência Financeira 14233 também mostra que, em junho de 2014, Cerveró “se desfez, em favor de seus parentes, de quatro imóveis no Rio de Janeiro”.

Dos imóveis, um teve como valor declarado R$ 160 mil e dois como R$ 200 mil.

“Ocorre que tais imóveis se situam na Rua Prudente de Morais, 1256, Ipanema, local em que o metro quadrado custa, em média, absurdos R$ 23 mil atualmente”, assinala o juiz federal.

Avaliação judicial feita em junho de 2013 revela que um imóvel no segundo andar desse mesmo edifício de Ipanema custa R$ 2,366 milhões.

O juiz destaca que Cerveró é “um dos principais articuladores e beneficiário de quantias estratosféricas a título de propinas pagas por fornecedores da Petrobras em troca de contratos com a estatal”.

Para o juiz, esses dados mostram que Cerveró vem tentando blindar seu patrimônio, “transferindo-o a pessoas de sua confiança”.