Heitor Férrer (PSB): Fortaleza está atrasada

Camila Almeida

O médico e deputado estadual Heitor Férrer (PSB), candidato à prefeitura de Fortaleza, é recém filiado ao partido socialista. Após 28 anos de atuação no PDT, decidiu largar a sigla com a chegada dos Ferreira Gomes por divergências políticas. No segundo semestre do ano passado, os irmãos Cid e Ciro, da tradicional família cearense, se filiaram ao partido. Em setembro de 2015, Heitor Férrer era o principal nome cotado para a prefeitura, de acordo com o Ibope. Hoje, um ano depois, disputa o cargo com o atual prefeito Roberto Claudio (PDT), que era do PSB quando foi eleito em 2012, e conta com apenas 7% das intenções de voto, quatro colocado nas pesquisas. Na sua coligação, após o racha com seu partido de origem, restaram apenas o PSB e a Rede. Em entrevista a EXAME Hoje, o candidato falou sobre o apadrinhamento político no Nordeste, a nova política pregada pelo PSB e a urgente necessidade de combater a violência em Fortaleza.

Por que o senhor quer ser prefeito?

Eu sou deputado de quatro mandatos, fui vereador de quatro mandatos e estou pleiteando pela segunda vez a prefeitura de Fortaleza [em 2012, pelo PDT, o candidato foi o terceiro colocado]. É natural de quem exerce o legislativo buscar o executivo para tentar viabilizar as políticas públicas exigidas quando parlamentar. Principalmente nas áreas que são de responsabilidade do município: educação, saúde, mobilidade urbana… Nós queremos dar ao Brasil um exemplo de administração e dar ao fortalezense o orgulho de ser de Fortaleza.

O senhor mudou de partido recentemente…

Depois de 28 anos no PDT, com a chegada dos Ferreira Gomes, eu me desfiliei.

Por quê?

Porque não tinha como conviver com os Ferreira Gomes dentro do mesmo partido. Nós temos pensamentos completamente díspares. Fui oposição ao governador Cid Gomes durante oito anos [2007-2014], tive embates políticos contrários ao modus operandi deles aqui no Ceará, portanto, nós somos a água e óleo, não nos misturamos.

Qual a principal divergência entre vocês?

Divergência de conduta política. Ele administrou o estado do Ceará de forma diferente da qual eu acredito. Não priorizou os setores necessários à evolução do estado. Por exemplo, no que diz respeito ao saneamento básico e na gestão de recursos hídricos. Faltou ética dentro do governo quando ele instituiu aqui os empréstimos consignados – o mesmo modus operandi do que pegou o Paulo Bernardo, ministro da Dilma. Eu denunciei e até hoje está lá em trâmite na justiça [desde 2012 o Ministério Público Estadual acompanha o caso. Em junho deste ano, o MPF abriu investigação]. Também fui contra obras faraônicas como o centro de eventos, centro olímpico, aquário… até hoje são obras ou inacabadas ou subutilizadas.

E por que o senhor escolheu o PSB?

Quando eu fui me filiar em 1987, tive dúvida entre o PDT e o PSB. A figura e a biografia de Brizola me encantaram. Então, eu optei pelo PDT. Mas também tinha simpatia pelo PSB, pela figura de Miguel Arraes. Quando é agora, praticamente me sobrou apenas o PSB, justamente o partido que estava na dúvida lá no começo.

O PSB é um partido que tem se apresentado como uma terceira via de opção, mas é duramente criticado por encampar o discurso da nova política baseado na velha política. O senhor levou essas críticas em conta?

Eu não vejo a posição do líder maior, que era o Eduardo Campos, como velha política. Discordo integralmente de que ele fez a velha política. Ele transformou o estado de Pernambuco, que era um dos estados mais violentos, diminuindo sensivelmente o índice de criminalidade. Deu uma nova feição de assistência às pessoas, através de políticas inovadoras no Recife e no estado. Obviamente nós respeitamos os que dizem assim, mas acho que dentro do quadro político brasileiro, o PSB atua como nova política, sim.

Pernambuco tem uma tradição de políticas coronelistas, de reunir uma grande base e não deixar espaço para oposição. Esse tipo de atuação, que também conta com a atuação de famílias tradicionais, é recorrente em vários estados do Nordeste, como no Maranhão e aí também no Ceará.

Essa cultura de ter apadrinhados eu abomino. Eu não tenho padrinhos, não tenho patrão, minha vida pública sempre foi independente. Não tive patrão no PDT e não tenho no PSB. Ajo de maneira muito independente. Não há sobre mim nenhuma interferência nas nossas condutas que não sejam condutas socialistas, de fazer com que as pessoas tenham o direito de acessar as melhores políticas públicas. Se o PSB, em outros estados, age dessa forma, com essa cultura de centralização de poder e desmando, a sociedade precisa estar muito atenta. Eu não vivo em Pernambuco, mas se isso acontece, a sociedade deve reagir – como em qualquer estado brasileiro, contra qualquer partido.

Vocês estão saindo com a Rede de vice e contam com o apoio da cúpula nacional do partido. Como foi essa articulação?

O prefeito tem o maior número de siglas – tanto é que eu defini como sopa de letrinhas. Ele detém o executivo, então, é evidente que tem uma base larga de vereadores. Garantiu um bom tempo de televisão, assim como o candidato dos senadores Eunício Oliveira (PMDB) e Tasso Jereissati (PSDB), Capitão Wagner (PR), que são lideranças fortes e também detém um bom numero de partidos. A mim, não sobrou nada. Sobrou o meu partido e o privilégio de estar com a Rede da Marina Silva, e  o meu vice se chama Dimas Oliveira. É um privilégio para mim ter o partido da Marina na nossa composição, eu a considero um rio limpo num mar de lama chamado Brasil.

Ser apadrinhado pelos Ferreira Gomes em Fortaleza tem apelo popular. Que estratégia o senhor está usando para tentar avançar campanha?

Precisamos mostrar para a sociedade que a prefeitura da quinta maior capital do país pode fazer muito – porque está aquém – pelas comunidades mais carentes e que mais precisam. Essa é a função do poder público, equilibras as periferias e os bairros mais nobres. Isso o prefeito não fez.

O que o senhor acha que precisa ser visto como prioridade hoje em Fortaleza?

Quebrar os mecanismos geradores da violência. Somos a capital mais violenta o Brasil e uma das mais violentas do mundo. Como? Atuando com políticas de segurança pública nos mais diversos setores. Na saúde, dando a garantia do atendimento público; na educação, garantindo ao cidadão boas escolas; em moradia popular, fazendo um inventário para a cidade e estabelecendo quais as áreas em que há mais necessidade de moradia; em lazer; em emprego e renda, com estímulo ao empreendedorismo. Por omissão nesses setores, as pessoas não têm uma boa política de segurança pública. Tenho dito que chamar a polícia é a demonstração latente de que todas as outras políticas falharam. Polícia é igual a dipirona em infecção grave. Ela atua por quatro horas, a febre desaparece, mas o processo infeccioso permanece o mesmo, e o quadro febril volta em seguida. 

Qual deveria ser o foco em Fortaleza para movimentar a economia local e posicionar melhor a cidade a nível nacional?

Fortaleza tem muito potencial no setor de serviços. É uma cidade onde 77% da nossa riqueza vem de ICMS justamente por conta de uma boa gastronomia, uma presença boa de turistas, para que isso melhore nossa colocação, a primeira coisa é diminuir os índices de violência que nos apavora. Não só a nós, para sairmos de casa e conviver com o espaço público, mas ao próprio turista. Para Fortaleza conseguir se desenvolver e crescer economicamente, é preciso acabar com a violência.

 

 

 

 

 

 

 

O senhor acha que Fortaleza está atrasada em relação ao que ela poderia ser?

Muito atrasada. Uma cidade que não tem esgotamento sanitário, o estado do Ceará é o quarto em incidência de microcefalia, a cidade é a mais violenta do Brasil. É uma cidade atrasada. Aqui nós temos um PIB elevado, com uma FIB, que é a felicidade interna bruta, vergonhosa. E essa relação tem avançar no sentido de atender às pessoas. É isso que tem faltado aos nossos gestores.