Golpe pôs fim a período de felicidade, diz Rose Nogueira

Companheira de cela de Dilma Rousseff durante a ditadura, Rose Nogueira garante que o golpe militar representou o fim de um período de felicidade

São Paulo – Rose Nogueira, líder do grupo Tortura Nunca Mais em São Paulo e companheira de cela durante a ditadura da presidente Dilma Rousseff garante que o golpe militar de 31 de março de 1964, que completa 50 anos, representou o fim de um “período de felicidade” no Brasil.

“O país que tentaram perpetuar com o golpe cívico militar foi o da síndrome de um país com a autoestima baixa, o da pobreza e do analfabetismo e de uma educação de baixa qualidade que até hoje o Brasil sofre”, disse Rose, em entrevista à Agência Efe, sentada na sala de sua casa no bairro de Sumaré, em São Paulo.

O golpe de Estado derrubou o presidente constitucional João Goulart, morto no exílio argentino em 1976, e deu início a uma ditadura de 21 anos.

O apoio civil à derrubada de Jango, segundo Rose, foi o objetivo da chamada Marcha da Família de 16 de março de 1964, quando um número indeterminado de pessoas exigiu uma intervenção militar para impedir a imposição do comunismo.

“A Igreja Católica tem a ver com esse movimento, as grandes famílias deste país, os descendentes da elite cafeeira deram apoio ao golpe. Setores da indústria, como mostram documentos, se reuniam para ajudar o golpe”, sustentou Rose.

“Goulart tinha aumentado o salário mínimo, elevado o orçamento educacional para erradicar o analfabetismo e instaurado o 13º salário para os trabalhadores formais”, ressaltou.

O Brasil que estremeceu com o golpe de 1964 “era capaz de colocar medo” nos poderes estabelecidos.

“Vínhamos da criação de Brasília em tempo recorde com o presidente Juscelino Kubitschek, da criação da bossa nova para o mundo, o cinema independente, os centros populares de cultura (CPC) e as reformas de base que propunha Goulart”, lembrou.

De acordo com a ativista, isso era algo que sempre preocupou os EUA em um cenário de Guerra Fria. “O Brasil incomodava”, afirmou.

“A efervescência cultural, apesar do golpe, se manteve por meio da televisão, com os concursos de música, onde aparecem as canções de protesto e personagens como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Chico Buarque e Os Mutantes”, lembrou.


Nesse marco, Rose se uniu aos simpatizantes da Ação Libertadora Nacional, do líder guerrilheiro Carlos Marighella, um dos mais emblemáticos personagens da resistência ao regime.

Em sua casa, enquanto ela estava grávida, havia reuniões de militantes de esquerda para reagir à ditadura.

“Porque a luta armada era exercida pela ditadura, matando os brasileiros. O outro foi a resistência a tudo isso”.

Rose foi presa enquanto amamentava seu filho de um mês e meio em novembro de 1968.

O bebê foi levado com os avôs e ela parou no Departamento da Ordem Política e Social (DOPS), onde passou por um duro interrogatório.

Depois, terminou transferida ao Presídio Tiradentes em São Paulo.

Ali chegou, ao começo dos anos 1970, uma militante do grupo Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) chamada Dilma Rousseff.

“Era muito culta e muito estudiosa. Em seguida, me perguntou se tinha livros. Discutíamos as notícias quando deixavam entrar algum jornal. Dilma foi uma das mais preparadas de nossa geração; tem a noção que um Brasil justo é maior que um sonho de juventude”, comentou.

Dilma ficou presa por quase três anos, período no qual sofreu 22 dias seguidos de torturas.

Um dos dilemas da resistência, segundo Rose, foi a Copa do Mundo de 1970, já que era usada como bandeira de unificação nacional pelo ditador Emilio Garrastazu Médici.

“As televisões portáteis tinham acabado ser lançadas e, graças aos carcereiros, tivemos uma. A princípio debatíamos se podíamos torcer por uma equipe que era usada pela ditadura. Mas torcemos a favor, é impossível torcer contra o Brasil, era o que queria o regime”, contou.

Para Rose, “eles (do regime militar que governaram até 1985) entregaram o país aos Estados Unidos e nós torcíamos pelo Brasil na prisão”.

Agora, 50 anos depois, os organismos de direitos humanos estão posicionados para a revogação da Lei da Anistia de 1979 que o próprio regime ditou para evitar abrir processos contra os autores de crimes contra a humanidade.

Rose confia que o trabalho da Comissão da Verdade possa abrir o caminho político para iniciar os processos contra os autores dos crimes.

“Estamos caminhando rumo à justiça de transição: memória, verdade, justiça e reparação. Acontece que o Brasil caminha diferente de alguns outros países, por ser continental, o Brasil é grande e lento”, avaliou.