Construção civil enfrenta gargalo na mão de obra

Escassez de profissionais gera aumentos salariais e pressiona inflação

São Paulo – O crescimento da construção civil deverá desacelerar em 2011, assim como grande parte dos setores da economia brasileira. O principal motivo, no entanto, não será, em um primeiro momento, a redução da oferta de financiamento ou a alta dos juros. Segundo especialistas, mais tangível que uma eventual perda de dinamismo no mercado de crédito é a imensa dificuldade das construtoras em encontrar trabalhadores.

A mão de obra que existe é escassa e cara. Entre janeiro e novembro deste ano, o Índice Nacional de Custos da Construção (INCC-M), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), subiu 6,95%, sendo que o item ‘mão de obra’ foi o que mais o pressionou, com um aumento de 8,73%. “Os empresários estão pessimistas quanto à evolução dos custos”, afirma Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da instituição.

A técnica da FGV explica que a indústria da construção trabalha hoje com um nível de ocupação recorde, o que tem elevado os custos das obras e pressionado o desempenho do setor. Por essa razão, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) anunciou que o crescimento de 11% previsto para 2010 deve cair para 6% no próximo ano. “É o setor que mais deverá sofrer caso haja uma desaceleração da economia, pois a casa própria não é uma demanda urgente. Ela pode ser adiada”, afirma o economista Roy Martelanc, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

A construtora Goldfarb, que atua nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, tem sofrido com esse gargalo. A empresa aponta que a dificuldade não está apenas em contratar, mas também em manter os profissionais, independentemente do tipo de cargo que estejam ocupando. “É uma questão que afeta desde os diretores, passando pelo engenheiros, até os operários. No entanto, o leilão salarial é mais forte nos cargos mais altos, pois esses profissionais têm consciência da escassez no mercado e estão atentos às oportunidades”, afirma Cristina Laur, gerente de Recursos Humanos da Goldfarb.

Empresas investem em formação

Na avaliação da executiva, a falta de formação adequada em algumas categorias é um agravante – fato que fez a empresa firmar parcerias com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e outras escolas de capacitação, além de criar um programa específico para engenheiros recém-formados. “As universidades liberam no mercado muita gente despreparada e construir é um trabalho de muita responsabilidade”, afirma.

Para obras fora do estado de São Paulo, a Goldfarb chega a levar mestres de obras próprios até as cidades onde estão localizadas as construções devido à impossibilidade de encontrar o mesmo profissional no local. “Em 2011, acredito que teremos até mais dificuldades no âmbito operacional, pois muitos projetos lançados neste ano serão efetivamente construídos em 2011. E isso acaba sendo um impeditivo para o crescimento da empresa”, diz a gerente.

No tocante aos cargos mais altos, o movimento que atualmente ocorre com engenheiros e arquitetos é semelhante ao que aconteceu com o mercado de consultores de SAP (sistema tecnológico de gestão de empresas). Companhias especializadas em aplicar o ‘software’ em outras empresas, como a IBM, acabaram perdendo seus profissionais, pois estes preferiam trabalhar como autônomos para obter melhor remuneração.


De acordo com Sofia Esteves, presidente do grupo de recursos humanos DMRH, o ‘leilão’ de engenheiros e arquitetos que se repete hoje pode ser nocivo. “São bolhas salariais que, em um determinado momento, estouram. E os profissionais movidos apenas pelo salário podem ter dificuldade em encontrar recolocação quando o setor se estabilizar”, afirma.

Escassez de operários é restrita

No caso dos operários da construção civil, como os pedreiros, os problemas existem, mas são menos graves. A razão é que sua formação exige baixo investimento por parte das empresas. Além disso, a escassez é restrita a alguns mercados, como partes do Sudeste, e tem sido suprida pela migração de brasileiros em busca de trabalho.

Na construtora mineira MRV – que possui obras em 87 cidades do Brasil e fechou o 3º trimestre do ano com 889,7 milhões de reais em vendas contratadas, sendo 71% das unidades vendidas no Programa Minha Casa, Minha Vida –, a falta de operários não acontece. “Em todas as regiões esse tipo de mão de obra está presente. O que ocorre com freqüência é o envio de profissionais mais especializados da própria empresa, como mestres de obras, para outros locais”, afirma Roberto Paixão, diretor do Centro de Serviços Compartilhados da MRV.

A companhia, inclusive, se antecipou ao aquecimento do mercado de trabalho na construção civil e, desde 2000, forma seus próprios profissionais desde o momento em que saem da universidade. “A diferença é que, naquela época, formávamos três engenheiros por turma, e hoje formamos quarenta”, conta o diretor. De acordo com a política de formação interna da MRV, são contratados anualmente 450 estagiários provenientes de faculdades com as quais a empresa tem convênio, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Dois anos depois, os estagiários formados preenchem 200 vagas de engenheiros para, cinco anos após, ocuparem trinta cargos de supervisores e pleitearem um cargo de direção na empresa. Trata-se de um caminho de, aproximadamente, doze anos.

“Quem reclama que falta profissional está muito focado no Sudeste. O Brasil está cheio de gente querendo trabalhar”, afirma Paixão, que não acredita que o setor de construção esteja esgotado. “A realidade é que, até 2030, a curva de demanda por habitação é maior do que as empresas conseguirão ofertar”, explica. O que o setor ainda não tem certeza é se o crédito para que a população concretize a demanda estará assim tão fácil nos próximos vinte anos.