Como o Rio conseguiu a proeza de ter trânsito pior que de SP

Moradores tiveram mais uma manhã de trânsito complicado no Rio de Janeiro. Até onde apontam as pesquisas, a cidade conseguiu a façanha de superar o (parado) tráfego de SP

São Paulo – As mudanças viárias que começaram hoje na Região Portuária do Rio de Janeiro foram sinônimo de mais um dia de trânsito intenso para os cariocas. Carros particulares foram proibidos de circular em certas vias e outras tiveram o sentido modificado. Tantas transformações parecem confirmar duas pesquisas lançadas nos últimos meses que soam inusitadas para muitos: mesmo em dias normais, os moradores do Rio sofrem mais que os de São Paulo para se deslocar de um lugar a outro.

EXAME.com conversou com especialistas em trânsito sobre a questão, uma vez que Sâo Paulo, famosa pelos engarrafamentos, tem uma população quase duas vezes maior do que a do Rio e também maior índice de carros por habitante.

O Rio surpreendeu ao receber a 3ª pior colocação do mundo logo na estreia do Brasil em índice que mede congestionamentos globais, feito pela empresa holandesa TomTom. São Paulo ficou atrás, em 7º lugar.

Segundo o levantamento, os percursos demoram 50% a mais do que seriam feitos sem engarrafamentos na capital carioca. No horário de pico do fim da tarde, o tempo perdido pelos motoristas chega a ser 125% maior.

Além disso, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançado em outubro do ano passado mostrou que em nenhuma região metropolitana do Brasil o tempo de deslocamento das pessoas para o trabalho é tão grande quanto no Rio de Janeiro.

Os cariocas levam, em média, 47 minutos no trajeto. Já os moradores da Grande São Paulo, que ficou em segundo lugar, levam 45 minutos e 36 segundos.

Para Paulo Ribeiro, professor de Engenharia de Transportes do COPPE-UFRJ, o fato pode estar ligado às características topográficas da cidade.

“O Rio tem uma condição muito particular e restritiva de relevo, enquanto São Paulo é uma cidade mais plana, sem tantos morros. No Rio não há alternativas. As viagens estão restritas aos poucos corredores principais que já existem, e que não têm capacidade de receber todo esse trânsito”, diz o professor.

Já José Guerra, professor de Engenharia de Transporte da UERJ, vê com ceticismo os dados que pintam um cenário pior no Rio do que em São Paulo.

“Tenho minhas dúvidas em relação aos critérios utilizados, porque São Paulo ainda tem uma taxa de automóveis por habitante (0,41) bem maior que a do Rio (0,28)”, afirma.


Não anda bem

Independente da comparação, Guerra concorda com o fato de que a capital fluminense tem sofrido cada vez mais com os engarrafamentos.

Entretanto, o professor pondera que muitas obras estão sendo feitas com o objetivo de melhorar a mobilidade na cidade e priorizar o transporte público.

“Há pelo menos quatro décadas que a cidade não investia o necessário para fazer frente ao crescimento da população. Nos últimos governos, entretanto, estamos vendo uma tentativa de correr atrás do prejuízo. Hoje as complicações para a implantação dessas medidas têm sido grandes, mas ainda assim temos que bater palmas”, diz Guerra.

Ribeiro observa, no entanto, que a iniciativa do governo de fechamento completo da Perimetral e retirada de mil vagas para carros no centro da cidade pode provocar um grande problema em curto prazo.

“Não tem um sistema de malha viária que absorva os 75 mil veículos que passavam pela Perimetral. Essa medida não é uma forma de incentivo ao uso do transporte público, mas sim uma imposição. Não houve melhora suficiente para que as pessoas se sintam motivadas a deixar o carro em casa”, diz Ribeiro.

Guerra também concorda que ainda não é possível abandonar os veículos.

“Temos que quebrar esse ciclo vicioso de dependência do automóvel. Para melhorar o trânsito, o carro deve ser usado apenas ocasionalmente. Mas isso só é possível com um transporte público de qualidade”, afirma.

Ele acredita, no entanto, que a rede pública de transporte ainda é ruim e carece de melhorias em todos os modais.

“Os sistemas ainda têm grandes problemas, como ficou claro no caso do descarrilamento do trem que aconteceu. Há a necessidade de troca dos trens e reparação das vias, que são antiquíssimas”, completa Guerra.

A solução vem do subsolo

Embora defendam a utilização de todos os tipos de transporte público de uma maneira inteligente e integrada, ambos os especialistas defendem o metrô como única solução definitiva e eficiente para o problema.

“Apostar em ônibus é uma alternativa imediata, porém limitada. Tem é que investir pesado no sistema de metrô, a exemplo do que já foi feito nas grandes metrópoles globais como Nova York, Londres e Pequim. Esta ainda é a melhor resposta”, diz Ribeiro.

“(O metrô) é a saída mais cara e complicada, mas precisa ser feita. Para ter sido menos doloroso, tínhamos que ter começado antes, mas o transporte público nunca foi tratado com a prioridade que deveria. A conta agora a ser paga é alta: vai dar trabalho e vai contrariar as pessoas, mas o Rio precisa caminhar nesse sentido. Se nada for feito, aí sim a cidade vai parar”, conclui Guerra, da UERJ.