As ruas divididas

Carol Oliveira e Thiago Lavado

Dilma Rousseff saiu do governo beirando os 10% de popularidade. Michel Temer assumiu e nunca passou dos 15%. O número nunca foi exatamente um problema, já que Temer tem uma agenda difícil de reformas pela frente, não dá mostras de querer uma reeleição, e tem sua base de apoio no Congresso, e não nas ruas. Em seis meses no cargo, o presidente nunca enfrentou um único protesto como aqueles que começaram a por um ponto final no governo de sua antecessora. Mas a maré pode estar para virar – segundo o próprio Planalto.

No domingo passado, Temer admitiu em entrevista que está preocupado com a “voz das ruas”. Neste domingo 4 acontece o primeiro grande ato convocado pelo Movimento Brasil Livre e pelo Vem Pra Rua, dois dos movimentos mais ativos no impeachment de Dilma Rousseff. Mais de 50 cidades aderiram ao protesto em menos de 24h, somando 24 estados, o Distrito Federal e 186 cidades, além de Portugal — mais de 100.000 pessoas já confirmaram sua participação pelas redes sociais. Domingo, portanto, será um teste de fogo para o governo. 

Eram dois grupos que, até agora, mantinham uma aprovação discreta a um governo que abraçou uma agenda de reformas. Mas, diante dos últimos acontecimentos, como o escândalo envolvendo o ex-ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, que pressionou o ex-ministro da Cultura para a liberação de uma obra em favorecimento próprio, ou a manobra que a Câmara realizou na madrugada de quarta para quinta-feira, em prol de descaracterizar o projeto de lei anticorrupção de autoria do Ministério Público Federal, a opinião popular vem mudando em relação ao governo – e o MBL e o Vem Pra Rua cansaram de suas confortáveis poltronas. 

Qual o risco de o caldo realmente engrossar? Nesta semana, a Esplanada dos Ministérios foi marcada por protestos comandados por grupos como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), ferrenhos opositores do governo. Como alvo estavam a proposta da PEC do Teto de Gastos e a reforma do ensino médio. No último domingo 27, 40.000 pessoas compareceram a um ato da Frente Povo Sem Medo na avenida Paulista. 

“Começa a ficar claro que a grande maioria da população queria tirar a Dilma, mas não necessariamente queria um governo Temer”, afirma Renato Meirelles, do instituto de pesquisa Locomotiva. Segunda a última pesquisa de opinião sobre a gestão Temer, realizada pelo Ibope a pedido da Confederação Nacional da Indústria em setembro, 39% da população acha Temer ruim ou péssimo, mesmo número de junho. Apenas 14% da população aprova a gestão, um ponto percentual a mais do que a medição anterior. Para 38%, as duas gestões são iguais, e 31% consideram Temer pior que Dilma.

Para a professora de sociologia da Unicamp, Andrea Marcondes de Freitas, o que pode levar o “cidadão comum” para as ruas de forma massiva é um novo escândalo de corrupção — como uma delação na Lava-Jato que envolva diretamente o presidente Temer. “Se isso acontecer, o sujeito que foi para a rua contra a corrupção específica do PT pode se voltar contra o Temer também”, diz.

Juntos ou separados? 

Segundo Rogério Chequer, um dos líderes do movimento Vem Pra Rua, o ato de domingo tem como pontos principais pedir a continuidade da operação Lava-Jato, o fim dos privilégios dos governantes, incluindo o foro privilegiado, e a aprovação do projeto de lei das 10 medidas contra a corrupção, na versão da comissão especial. O juiz Sérgio Moro foi convidado pela organização a participar.

O evento, segundo a organização reiterou por carta, não é contra o governo Temer e nem se pretende como tal. “Condenamos sim algumas medidas do governo e elogiamos outras. Não há motivos para o impeachment de Temer ainda. Esperamos que haja governabilidade até o final do mandato”, afirma Chequer. Ainda assim, ele afirma que o Vem Pra Rua não apoia o governo independente do que aconteça e pode, a depender das circunstâncias, convocar manifestações pedindo o impeachment de Temer.

Para o analista político e colunista de EXAME Hoje, Joel Pinheiro da Fonseca, embora Temer tenha afirmado que não irá deixar passar projetos como a anistia ou o abuso de autoridade, isso ainda não é uma preocupação fundamental. “Caso algum projeto polêmico, que contraponha interesses da Câmara com os da população, chegue ao colo de Temer, aí sim ele estará em uma encruzilhada. Não há movimentos populares que apresentem defesa incondicional do governo”, afirma.

Questionado se grupos de esquerda, sob a bandeira do “Fora Temer”, seriam bem-vindos na manifestação de domingo, Chequer respondeu que o grupo não compactua com esse tipo de reivindicação e que a participação de outros grupos precisa ser vista caso-a-caso. “Nós não convergimos com a agenda da esquerda. Nossas pautas para domingo são bastante claras”.

O Movimento Brasil Livre, que também foi um dos pilares das manifestações contrárias ao governo Dilma, endossou o convite para as ruas no dia 4 de dezembro. A reportagem entrou em contato para falar com os líderes do grupo, mas não obteve resposta.

Uma boa notícia para o governo: embora MBL e Vem Pra Rua estejam convocando atos que podem, no fim, resvalar na imagem de Temer, a esquerda não está nem um pouco propensa a se juntar a eles nas ruas.  “Não vamos marchar junto com gente que prega a intolerância, que representa o pensamento mais conservador e atrasado no Brasil”, afirma Guilherme Boulos, diretor do MTST e um dos líderes da Frente Povo Sem Medo.

Mesmo com grupos distintos dentro dos atos, o movimento conhecido como “Fora Temer” acabou se tornando mote principal capaz de unir a esquerda. Mas enquanto os atos mais alinhados à direita focam na luta contra a corrupção, os principais alvos das manifestações da esquerda vêm sendo a PEC do Teto de Gastos e outras reformas do governo — temas que, por outro lado, são defendidos por grupos de direita.

Segundo Carina Vitral, presidente da UNE, a corrupção é uma preocupação dos movimentos sociais também. “Somos alguns dos maiores interessados no fim da corrupção, que deve partir de investigações isentas. Vamos acreditar nisso quando políticos de partidos como o PSDB também forem condenados”, afirma.

Para Sâmia Bomfim, recém-eleita vereadora de São Paulo pelo PSOL, a corrupção também é uma pauta da esquerda e isso deveria ficar mais claro nos atos. “A gente tem que pegar a pauta da luta contra a corrupção para o nosso setor, porque a direita se apropria muito disso”, disse.

A opinião é compartilhada pelo deputado estadual Marcelo Freixo, candidato derrotado à prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSOL. “A luta contra a corrupção não pertence a qualquer movimento. Não tem quem se preocupa mais com corrupção”, afirma. Ainda assim, para ele, não há a menor condição de caminhar ao lado de grupos de direita, mesmo que por uma pauta comum. 

Polarização

A importância das ruas na política brasileira ganhou nova vida em 2013, quando manifestações que começaram contra o aumento da passagem de transporte público em São Paulo se espalharam pelo Brasil, com pautas que iam desde a melhora dos serviços públicos à luta contra a corrupção. De lá pra cá, houve novas eleições, Copa do Mundo, Olimpíadas e impeachment: todos marcados por forte participação do povo nas ruas.

A socióloga Andréa Marcondes de Freitas, da Unicamp, explica que uma das principais mudanças de lá pra cá foi a maior polarização entre esquerda e direita. “Os grupos iam pra rua juntos, e depois isso foi se transformando em algo diferente e polarizou de vez”, diz.

Segundo a pesquisa “Mapa Político”, do instituto de pesquisas Hello Research, entre as eleições de 2014 e 2016 o número de pessoas que se identificavam de direita e de esquerda se manteve estável — em 2014, 15% se identificava de esquerda e 13% de direita; em 2016, 13% eram de esquerda e 14% de direita. Enquanto isso, os moderados do centro caíram de 30% em 2014 para 16% em 2016. Na mesma medida, os que não tinham qualquer tipo de posição subiram de 40% para 57%.

Segundo Denis Bertoncello, diretor de operações da Hello Research, o dado mostra como uma grande parcela de eleitores deixou o centro de lado e migrou para a aversão política. “Esse movimento também minou a popularidade de políticos como Lula e Dilma, deixando o cenário aberto para novos nomes ainda indefinidos”, diz Bertoncello. Para ele, a chance dos grupos de direita e de esquerda dividirem as ruas é muito baixa, o que não impede que cada um ocupe partes diferentes do mesmo espectro político. 

Ameaça a Temer?

Levando-se em conta que as manifestações ajudaram a derrubar um presidente há poucos meses, entender os movimentos das ruas continua sendo fundamental. “Surgiu uma ideia de que o impeachment seria a solução da crise econômica e a solução da corrupção no Brasil. Fica claro que o impeachment não resolveu a crise e que os problemas de corrupção vão além do PT”, afirma Renato Meirelles. Para ele, há uma relação direta entre crise econômica e os protestos — quanto pior a situação econômica, mais as pessoas tendem a ir às ruas.

Diante dos últimos dados econômicos, que mostraram um encolhimento da economia brasileiro em 0,8% no terceiro trimestre do ano, redução das expectativas de crescimento para 2017 e um atraso da melhora no cenário, o governo tem razões para se preocupar.

A agenda política também pode ajudar, ou complicar, as coisas para o governo. O envio da reforma da previdência ao Congresso, por exemplo, vem sendo sistematicamente adiado, justamente por ser uma pauta mais sensível à população como um todo. Para a socióloga Andréa Marcondes de Freitas, da Unicamp, as medidas impopulares, se somadas a um novo escândalo de corrupção, podem ser a deixa para uma nova explosão nas ruas. “Se isso acontecer, o sujeito que foi para a rua contra a corrupção específica do PT pode se voltar contra o Temer também”. Não vai acontecer neste domingo. Mas, até o fim do governo, há mais de 100 domingos pela frente. É melhor ouvir as ruas.