Congresso: as entranhas à mostra

Na calada da noite, uma emenda de um antigo projeto aparece de supetão na pauta da Câmara. O efeito seria anistiar deputados acusados de caixa 2 na Operação Lava-Jato. A imensa maioria dos deputados não sabe de onde o projeto saiu, nem quem são seus defensores. Segundo Beto Mansur (PRB-SP), que presidiu a sessão, foi uma demanda dos líderes partidários – do PT, do PSDB, do centrão. Eles, obviamente, negam, assim como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que estava assumindo interinamente a presidência da República no dia da votação.

Passadas 36 horas, a tentativa de anistiar o caixa 2 segue envolta em mistério, mas traz uma certeza à tona: ao contrário da inteligência, a desfaçatez do Congresso não tem limites. A Câmara, como bem lembrou o ex-deputado Eduardo Cunha no dia em que foi cassado, tem 160 congressistas acusados por algum crime – boa parte deles justamente por caixa 2. “Não importa a pressão pública, o Congresso sempre vai dar um jeito de defender seus interesses”, diz um cientista político. “Pode ter certeza que outras tentativas serão feitas após as eleições municipais”.

Para o governo, os simples boatos de ter participado desta empreitada sorrateira são péssimos. Se foi surpreendido, o fato serve como uma sombria lembrança. Vai ser duro aprovar, com esse Congresso fisiológico, medidas importantes como a reforma política ou a cláusula de barreira. E mesmo medidas sobre as quais há mais consenso, como o limite de gastos públicos, podem ficar reféns dos oportunistas. Que, como se viu na noite de segunda-feira, não dão muita bola para limites.