As duas bombas no colo do governo

Parece aquela história dos montanhistas que se preparam para chegar ao pico da montanha e, uma vez lá, descobrem que há um cume ainda maior à frente. Pois o governo começa a semana tendo que lidar com o agravamento de uma crise para a qual já não tinha respostas concretas. No fim de semana, um novo massacre, desta vez na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, deixou ao menos 26 mortos. Todos eles eram integrantes do Sindicato RN, facção rival ao Primeiro Comando da Capital. Já são 125 assassinatos em presídios brasileiros em duas semanas de 2017.

O presidente, Michel Temer, e o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, têm reunião marcada para amanhã com os secretários estaduais de Justiça para discutir o novo Plano Nacional de Segurança. Espera-se que, até lá, o governo tenha uma injeção de sinceridade e reconheça que a situação nos presídios brasileiros está, evidentemente, fora de controle. No fim de semana ainda houve fugas na Bahia, em Minas Gerais e no Paraná.

Em outra frente, uma nova leva de escândalos e delações coloca o mundo político mais uma vez contra a parede. Na sexta-feira, a Operação “Cui Bono?”, da Polícia Federal, revelou um esquema de propinas armado na Caixa Econômica Federal que envolveria o ex-deputado Eduardo Cunha e o ex-ministro Geddel Vieira Lima. No domingo, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que o operador Lúcio Funaro oferecia empréstimos de 100 milhões de reais com comissão de 30% para que os contratantes nunca mais precisassem quitá-los. A conta iria para todinha a viúva.

A operação partiu de mensagens de um celular de Cunha, o que reforça a suspeita de que o ex-deputado tem muito a contar sobre inimigos e aliados. Se ele delatar, segundo um congressista, “não sobrará muito da República”. A revista VEJA ainda revelou no fim de semana que a empreiteira Camargo Corrêa pode seguir os passos da Odebrecht e fechar um megaacordo de delação que envolveria 40 executivos e implicaria mais de 200 políticos.

Este cenário em que as delações pairam como uma espada sobre a cabeça do governo já era esperado desde o fim de 2016. A crise das prisões, obviamente, não. Os próximos dias vão mostrar qual bomba explode primeiro.