Alunos imigrantes são tidos como caso de saúde mental em SP

Em bairros com maior presença de imigrantes, aumentou o número de estrangeiros enviados ao sistema de saúde por falta de treinamento dos professores

São Paulo – A menina síria H., de 11 anos, vivia em São Paulo havia quatro meses quando recebeu da professora um papel cheio de palavras que ainda não entendia – “dislexia”, “déficit de atenção” e “deficiência de aprendizagem”, vocabulário que àquela altura nem ela e nem os pais, recém-chegados ao Brasil por causa da guerra em seu país, conseguiam decifrar.

O documento indicava procurar uma unidade de saúde para avaliação psicológica. A mãe entendeu essa última palavra e se preocupou.

Na Unidade Básica de Saúde mais próxima, o caso de H. não foi novidade. Era 2015 e vigorava a “chuva de papeizinhos”, nas palavras de quem trabalha na UBS, referindo-se à quantidade incomum de pedidos de avaliação psicológica a imigrantes – uma situação que se intensificou com o aumento do fluxo migratório ao País.

Nos últimos cinco anos, o número de estudantes estrangeiros aumentou 71% na rede municipal (de 2.419 alunos matriculados em 2012 para 4.136 alunos em 2016) e 20% na estadual (de 4.513 em 2012 para 5.429 no ano passado). Já a formação de professores e funcionários das escolas não teve o mesmo incremento.

Em bairros com maior presença de imigrantes, como Glicério, Bom Retiro, Sé e República, no centro, e Mooca, Brás e Guaianases, na zona leste, a enxurrada de papéis se tornou rotina nas UBSs.

Na unidade da Sé, um mutirão em 2013 analisou 35 casos de estrangeiros encaminhados para avaliação psicológica ao longo de seis meses – nenhum tinha problemas de saúde mental, como apontaram os agentes comunitários de saúde após visitar as casas dos imigrantes, e os médicos e psicólogos, depois da avaliação.

Na República, nessa mesma época, o número de encaminhamentos era de pelo menos 2 por semana – o que levou os profissionais da unidade a fazerem uma “blitz” nas quatro escolas que mais enviavam os pedidos, o que minimizou o problema.

“Ao apontar a criança e dizer que o problema é ela, aí sim pode surgir um atraso”, diz a psicóloga e professora da USP Sylvia Dantas, coordenadora de um grupo de pesquisa de psicologia intercultural.

“Para evitar a patologização do imigrante, é preciso conhecer o contexto das famílias”.

Ainda não há levantamento da quantidade de pedidos de avaliação psicológica de imigrantes por parte das escolas, mas há indícios do problema.

Uma funcionária da Secretaria Municipal de Educação, a pesquisadora Ana Paula Ignácio, notou um número alto de solicitações na zona leste e foi a campo.

Deparou-se com uma escola em que 18 dos 30 imigrantes matriculados, ou seja, 60%, foram encaminhados com suspeitas de autismo e déficit de aprendizagem.

Entre os alunos brasileiros da área, a taxa caia para 30% – incidência também alta, mas a metade do registrado para alunos de outro país.

Nos dois grupos, o mesmo número de pedidos pertinentes: entre 1 e 2 crianças necessitavam, de fato, acompanhamento psicológico.

“Essa criança vive um duplo estigma: o do deficiente e o do estrangeiro. E isso em um momento importante, o da escola, porta de entrada para integração não só da criança, mas da família toda à sociedade brasileira”, diz Ana Paula, que atualmente pesquisa o tema para seu mestrado na PUC-SP.

A Secretaria e ex-funcionários admitem o problema. “A escola reflete a sociedade e pode ser bastante xenófoba. Nas formações de professores, escutamos que ‘os alunos de tal país são todos autistas’, que a escola está ‘infestada’, ou que são ‘invasores’. Por isso a importância de investir na formação”, diz a educadora Adriana de Carvalho, que coordenou o núcleo étnico-racial da pasta na gestão passada.

O treinamento para lidar com esses alunos começou em 2014. Dos cerca de 60 mil professores da rede municipal, apenas 33 mil foram formados.

Entre os servidores, somente 209, entre 82 mil, passaram pela capacitação, segundo o Centro de Referência e Acolhida para Migrantes, ligado à Prefeitura. A Prefeitura afirmou que vai “intensificar” a formação de funcionários.

Em janeiro de 2016, depois de seis meses de “preparo”, a menina síria H. voltou à mesma escola, para repetir a quinta série.

Já sabia bem mais do que “sim” e “tá bom”. Fez amigos entre os 35 colegas brasileiros e gostou da nova professora, que tinha outro olhar.

“Ela ficava do lado nas provas e traduzia o que eu não entendia com um celular”, conta a menina. O resultado veio no fim do ano: H. foi aprovada (nota 89) para a sexta série, que começou no mês passado.

Na primeira folha do caderno, bandeiras da Síria e do Brasil, e duas frases: “Somos um só” e “Eu amo brigadeiro”.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.