No momento em que o americano Andy Jassy , vice-presidente sênior de serviços web da Amazon (foto), anunciava à EXAME o início da operação local dos serviços baseados em internet, uma seleção de lutadores para um reality show ligado ao campeonato The Ultimate Fighter acontecia na sala ao lado, no espaço de eventos de um hotel em São Paulo. O perfil tranquilo do executivo nada tem a ver com as lutas. Mas a instalação de data centers da Amazon no Brasil vai soar para os fornecedores tradicionais de serviços baseados na nuvem como um duro golpe.
Primeiro é preciso entender que o anúncio nada tem a ver com a Amazon que a maioria das pessoas conhece. Os fãs do serviço de comércio eletrônico da empresa terão de esperar mais por uma versão brasileira do site de comércio eletrônico mais famoso do mundo. A empresa tem três divisões: o comércio eletrônico, o serviço oferecido para terceiros venderem pelo site da Amazon e a de serviços web. Oficialmente, a companhia não tem planos para iniciar as duas primeiras ofertas no país, apesar de garantir que acredita muito no potencial econômico do Brasil. São as ofertas da terceira área de negócios da Amazon, a de serviços web, é que estreiam hoje no país.
Muitas empresas, especialmente empresas de internet, já contratavam os serviços da Amazon à distância. Os dados das empresas eram processados nos grupos de data centers instalados nos Estados Unidos, Europa ou Ásia. Agora que a Amazon decidiu se instalar na região e iniciar a atuação com dois data centers baseados em São Paulo, dois impactos devem ser percebidos. Quem já é cliente dos data centers instalados na costa leste dos Estados Unidos vai perceber uma redução na latência (diferença entre o início de um comando e seu retorno) de cerca de 70%. A resposta dos dados hoje leva entre 100 e 150 milionésimos de segundo. A redução fará a resposta cair para entre 20 e 30 milionésimos de segundo. Parece pouco quando se trata de milionésimo de segundo. Mas, para clientes da Amazon como o site de compras coletivas Peixe Urbano, que tem picos de audiência e que oferece um serviço baseado em compras por impulso, a diferença é muito importante. Em segundo lugar, a diferença deve aparecer na confiabilidade. Culturalmente, os brasileiros e sul-americanos gostam de ter as informações guardadas perto de casa, no mesmo país ou região, mesmo quando terceirizadas.
Apesar de ser pouco conhecida do grande público, existe uma grande expectativa em relação ao negócio de serviços web. “Esta área tem grande potencial de se tornar a mais importante da companhia”, diz Jassy. O executivo está na Amazon desde que a empresa começou a desenhar o plano da área de serviços web. Ele afirma que, naquela época, se alguém tivesse dito a ele a velocidade do crescimento dessa divisão, ele não teria acreditado. “Teria dito que era um louco.” Mesmo assim o negócio cresceu e a Amazon hoje nocauteia os concorrentes do setor. Por isso, Jassy não arrisca uma data para o negócio ultrapassar a receita gerada pelas outras divisões.
É por isso que as empresas tradicionais fornecedoras de serviços de hospedagem no país e outros baseados na nuvem devem abrir os olhos. UOL Host, Locaweb e Tecla (a divisão da Alog) são algumas dessas empresas. O fundador da Amazon, Jeff Bezos, trabalha com a filosofia de cobrar margens baixas de lucro e atender a um alto volume de clientes. Outras empresas que seguem regras opostas de negócio terão dificuldade de continuar operando da mesma forma na região, especialmente praticando os mesmos preços. “A Amazon tem um espírito empreendedor e pioneiro em computação em nuvem, tanto que nos últimos anos reduziu o valor cobrado por suas ofertas algumas vezes”, diz o analista de indústria da empresa de pesquisas em tecnologia Frost&Sullivan, Fernando Belfort.
Além desses, outros competidores deverão enfrentar a concorrência da empresa, já que o plano é trazer todos os quase 30 serviços da divisão para o Brasil. Quem já conhece a dominação da empresa nos Estados Unidos e Europa, está comemorando os ganhos obtidos com a chegada da empresa no país. Quem é apenas consumidor interessado em comprar no site da empresa, no entanto, terá de continuar esperando.