A polêmica aliança fechada entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado Paulo Maluf (PP-SP) em torno da candidatura de Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo tem muitos paralelos na eleição municipal do Rio. Com o início oficial da campanha, o eleitor carioca está sendo apresentado a um leque de candidaturas sustentadas por uniões para lá de disparatadas.
Em busca da reeleição, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) larga com uma ampla coalizão de 19 legendas que vai do PC do B, de Jandira Feghali, ao PP, de Jair Bolsonaro, passando pelo PRB, de Marcelo Crivella, que virou ministro da Pesca e saiu da disputa. Com isso, Paes terá um latifúndio de 16 minutos no horário eleitoral na TV, mais da metade do tempo total. Ele ainda tem a vantagem de ser candidato único de Lula e da presidente Dilma Rousseff. Na eleição passada, Lula apoiou Paes a pedido do governador Sérgio Cabral, mas também fez campanha para o candidato próprio do PT, Alessandro Molon, além de subir no palanque de Marcelo Crivella (PRB). Neste ano, apenas Paes terá a companhia de Dilma e Lula nos comícios e nas fotos do material de campanha. O vice de Paes, a propósito, é o petista Adilson Pires, embora o atual prefeito tenha definido o PT como uma quadrilha chefiada por Lula, quando integrou a CPI do Mensalão, em 2005, quando era deputado tucano.
Paes faz um governo considerado técnico — em vez de políticos, nomeou profissionais reputados ou servidores de carreira para a maior parte das secretarias municipais. Também transformou a capital fluminense num grande canteiro de obras, o que já era esperado, graças à proximidade com a Olimpíada de 2016. Seu estilo tem, portanto, muitas semelhanças com as administrações do ex-prefeito Cesar Maia (DEM), de quem foi pupilo. Rompido com Maia em 2003, Paes passou pelo PSDB antes de ingressar no PMDB do governador Sérgio Cabral.
A agenda de obras ajuda Paes a se desvencilhar do inferno astral do governador. O padrinho político do prefeito teve a imagem abalada pela relação íntima com Fernando Cavendish — dono da construtora Delta — escancarada em fotos divulgadas pelo ex-governador Anthony Garotinho (PR), seu maior desafeto. O curioso é que Cabral foi eleito em 2006 com o apoio de Garotinho e da mulher dele, a ex-governadora Rosinha. Até hoje, Cabral mantém no governo muitos ex-auxiliares do casal, incluindo o vice-governador Luiz Fernando Pezão, cotado para a sucessão estadual.
Até o ano passado, ninguém convidaria Cesar Maia e o casal Garotinho para o mesmo recinto. Mas, como em política tudo parece ser possível, poucas semanas antes do início da campanha, eles posaram para fotos de mãos dadas em torno dos filhos Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho, titular e vice da inusitada chapa DEM-PR para a prefeitura. As famílias rivalizaram durante todo o tempo em que ocuparam simultaneamente os palácios da Cidade e da Guanabara no início da década passada. Viviam trocando ofensas públicas. Numa delas, o ex-prefeito classificou o apoio de Garotinho à campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência em 2006 como “o beijo da morte”. Agora, unidos pelo ostracismo imposto por Paes e Cabral, os clãs tentam superar juntos os anos afastados da máquina pública, mas têm poucas chances de inviabilizar os planos do atual prefeito de abrir os Jogos Olímpicos de 2016.
O favoritismo de Paes hoje contrasta com a eleição de 2008, que venceu por uma margem muito apertada sobre Fernando Gabeira (PV). O ex-deputado não voltou à disputa. Apoia agora a candidata do seu partido, a deputada estadual Aspásia Camargo, mas sua “onda verde”, que mobilizou jovens na internet há quatro anos, deve se repetir agora em favor de Marcelo Freixo (PSOL), que chegou a flertar com Gabeira. Marina Silva e descontentes do PT também podem aderir à campanha do deputado estadual. Ele ficou conhecido pela bandeira ética e pelo combate às milícias de policiais (por isso é ameaçado de morte) e lançou a candidatura ao lado do próprio capitão Nascimento, o ator Wagner Moura, seu principal cabo eleitoral. Usa agressivamente as mídias sociais e é o único adversário de Paes que tem conseguido fazer barulho até agora.
O deputado tucano Otávio Leite bem que tentou chamar atenção usando inserções do PSDB na TV para atacar projetos de Paes, como a demolição de um elevado para revitalizar a zona portuária do Rio, mas não é difícil imaginar a falta de apelo de um discurso contra obras numa cidade carente de infraestrutura diante de uma Copa e de uma Olimpíada. O candidato do PSDB é um dos poucos políticos cariocas que resistiu ao troca-troca partidário nos últimos anos. Segue sob a liderança do ex-governador Marcello Alencar desde a década de 90. É bem verdade que Leite nunca foi muito próximo de Paes no PSDB, mas se procurar bem, é capaz de encontrar uma foto sua pedindo voto para ele 2006, quando o atual prefeito foi o candidato tucano ao governo estadual. Contra Cabral. Como se vê, a política carioca é tão ou mais heterodoxa, para dizer o mínimo, que a política paulistana. (Alexandre Rodrigues)


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