Já era conhecida a intimidade entre o governador do Rio, Sergio Cabral (PMDB), e o dono da Delta, Fernando Cavendish. Mas, como diz o ditado, uma imagem vale mais do que mil palavras. Aproveitando o envolvimento da construtora com a máfia do bicheiro Carlinhos Cachoeira, alvo da Polícia Federal e da CPI instalada no Congresso, o deputado federal Anthony Garotinho (PR-RJ) mirou artilharia pesada contra Cabral, seu mais amargo desafeto.
Em seu blog, Garotinho divulgou fotos e vídeos da convivência de Cabral e Cavendish. Brincadeiras juvenis, com dancinhas e guardanapos na cabeça surpreendem. Mas o que incomoda mesmo é a dúvida sobre quem realmente pagou as contas das excentricidades em restaurantes e hotéis de luxo em Mônaco e em Paris. Cabral soltou nota dizendo que pagou por suas despesas pessoais. Tomara que ele e seus secretários (que também aparecem nas fotos) tenham pago mesmo. Todos sabem que presentes de empresários a políticos geralmente representam pagamentos de favores feitos com o dinheiro do contribuinte.
No ano passado, Cabral já havia sido constrangido pelo acidente de helicóptero que matou a namorada de seu filho e a mulher de Cavendish. O episódio revelou que o governador iria à festa de aniversário de Cavendish com o filho e a nora. Parte do caminho até a Bahia, onde aconteceria a festa, foi feita a bordo de um jatinho emprestado pelo empresário Eike Batista. O acidente ocorreu na segunda etapa do trajeto, que seria feita em duas viagens de helicóptero. As mulheres seguiram na primeira viagem, na qual houve a queda da aeronave. A relação imprópria com empresários que prestam serviços ou dependem de órgãos do governo estadual levou Cabral a prometer que seguiria as regras de um código de ética, mas acabou revivida agora por obra de Garotinho em imagens que datam de 2009.
A CPI do Cachoeira não prevê, por enquanto, a convocação de Cabral, mas o abalo à sua imagem é grande. Como a política de alianças do governador fluminense nos últimos anos tem sido a de abraçar o maior número possível de aliados, aniquilando adversários antes mesmo das eleições, o seu desgaste embute o risco de um vazio político no Rio.
Curiosamente, Cabral foi eleito ao primeiro mandato com o apoio de Garotinho. Foi ele, Garotinho, que indicou o vice-governador Luiz Fernando Pezão à chapa de Cabral. Pezão foi secretário de Rosinha Garotinho. Logo após a posse, Cabral tratou de renegar os antecessores Garotinhos, e Pezão ficou ao seu lado. É bom lembrar que os contratos da Delta começaram a engordar na gestão dos Garotinhos e que Pezão foi secretário de Obras duranto os primeiros quatro anos do governo Cabral.
Mesmo sabendo que tem poucas chances de se reabilitar no papel de denunciante, Garotinho segue disposto a provocar danos à imagem de Cabral. Além da vingança pessoal, Garotinho sabe que Cabral é um forte avalista da reeleição do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) este ano. E Garotinho e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) — ex-inimigos que o ostracismo uniu — lançaram uma chapa formada pelos filhos Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho. A dupla, no entanto, não parece ter força para vencer Paes.
A sorte de Paes — que não apareceu em imagens comprometedoras, pelo menos até agora — é a ausência de adversários fortes. O prefeito do Rio costurou uma aliança com mais de dez partidos, que vai do PP ao PT. Desafiantes fracos, os deputados federal Otávio Leite (PSDB) e estadual Marcelo Freixo (PSOL) tentam usar os apuros de Cabral, mas têm poucas chances de influenciar na convocação dele na CPI em Brasília ou na criação de uma outra na Assembleia do Rio, onde o governo estadual tem ampla maioria.
O governador assumiu a difícil tarefa de eleger Pezão seu sucessor. O vice-governador ainda é pouco conhecido e muito dependente do capital político de Cabral para se eleger. Se as relações perigosas do governador deixarem esse espaço político vazio, um dos nomes mais habilitados a preenchê-lo é o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), pupilo de Lula e de Dilma Rousseff, que vem aguardando ansiosamente essa oportunidade. Ele nunca escondeu que trabalha para suceder Cabral no Palácio Guanabara. (Alexandre Rodrigues)


Expandir todos os 0
Para deixar um comentário você precisa se identificar. Escolha um dos tipos de identificação abaixo:
Termos de uso | Comentários sujeitos a moderação