São Paulo
Germano Luders
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A guerra de torcidas pelo monotrilho no Morumbi

O lançamento da concorrência do monotrilho que ligará o aeroporto de Congonhas ao sistema metroviário de São Paulo foi um evento peculiar. Ocorreu numa quinta-feira, 30 de setembro, mas não foi em Congonhas, o ponto de partida do trajeto, e sim em Paraisópolis, a terceira maior favela da capital, cravada no Morumbi, um dos bairros da elite paulistana por onde passará o monotrilho. O evento tinha tudo para ser mais um ato protocolar, até que apareceu a torcida Independente do São Paulo Futebol Clube.

Sua presença provocou um certo clima de descontração entre alguns políticos presentes. O são paulino Gilberto Kassab, prefeito da capital, aproveitou para agitar a bandeira do time. Seu irmão, Marcos Kassab, diretor do Metrô, e João Paulo de Jesus Lopes, secretário adjunto dos Transportes Metropolitanos – e assessor da presidência do clube – posaram para fotos ao lado dos rapazes paramentados com camisetas e bonés do tricolor. O mais retraído do grupo era José Luiz Portella, secretário de Transportes Metropolitanos, um palmeirense convicto que costuma exibir a camisa do verdão em seu gabinete.

O apoio dos torcedores são paulinos foi bem recebido por representantes da favela, que veem o projeto como a solução para a crônica falta de transporte público na área. Mas a tietagem dos representantes do poder público desagradou integrantes de associações de moradores do Morumbi que circulavam pela cerimônia. Mobilizados para impedir que o elevado de 12 metros de altura que sustenta o monotrilho passe entre apartamentos e casas de alto padrão do bairro, eles interpretaram a confraternização como um lobby ofensivo. O São Paulo é dono do estádio do Morumbi, que também está no trajeto do monotrilho. Quanto mais rápido ele chegar ao estádio, maiores são as chances de o clube acelerar a revitalização no entorno, o que inclui a construção de um prédio de estacionamentos no local. Nesse trecho, aliás, o monotrilho já era previsto pelo clube. O projeto original de revitalização do estádio, assinado pelo renomado arquiteto Ruy Ohtake, em 2007, previa a ligação entre o futuro estacionamento e a estação de metrô da Linha Amarela com um trem elevado.

Por essas e outras cenas e detalhes pitorescos, as divergências em torno do monotrilho no Morumbi ganharam a fama de ser uma disputa restrita, entre ricos e pobres paulistanos, com pitadas futebolísticas. Não é bem assim. O que está em pauta nesse projeto é quais são os tipos de transporte público que mais se adequam às necessidades de uma metrópole como São Paulo e como eles devem ser utilizados não apenas na cidade, mas no resto do país, pois tudo que é feito na região influencia decisões em âmbito nacional.

O projeto do monotrilho do Morumbi, oficialmente linha a 17 – Ouro, tem cerca de 21 quilômetros e cruza o Rio Pinheiros. De um lado, interligará o aeroporto de Congonhas às estações de metrô das linhas Azul (Jabaquara) e Lilás (Água Espraiada), bem como ao sistema de trens metropolitanos (Estação Esmeralda). Essa parte do trajeto é considerada inteligente e adequada, já que monotrilhos se prestam justamente para conectar sistemas de transporte de maior capacidade.

Ao cruzar o rio, o trem elevado deverá margear a favela de Paraisópolis, seguir até o estádio do Morumbi e terminar na Linha Amarela do metrô. É nesse prolongamento que se concentram as divergências. A extensão deveria facilitar a chegada dos torcedores ao estádio do Morumbi durante os jogos da Copa. O Morumbi não será mais sede do mundial de futebol, mas a linha permanece com a missão de suprir a falta de transporte público para os moradores de Paraisópolis.

Segundo Marcos Kassab, irmão do prefeito e diretor do Metrô, o número de passageiros nesse monotrilho ficará na casa de 20 000 por hora – no máximo 25 000 – e a demanda será contínua. Entrará e sairá gente ao longo do trajeto de maneira equilibrada, sem pressão nos horários de pico. Em média, cada vagão tranportará sete passageiros por metro quadrado. Todo o projeto, inclusive a capacidade dos trens, leva em conta essa premissa. Consultores ouvidos pela revista EXAME para uma reportagem sobre monotrilhos (que está nas bancas) avisam que Paraisópolis pode não ter as necessidades atendidas como espera e recomendam uma reflexão sobre os números.

Estima-se que cerca de 80 000 pessoas vivem em Paraisópolis. Como é comum nas favelas, pelo menos metade dos moradores trabalha e, a maior parte, longe do Morumbi. São cerca de 40 000 pessoas saindo pela manhã e retornando ao final do dia. Hoje esses trabalhadores se acotovelam nos ônibus. Com a passagem do monotrilho, dizem os especialistas, em pouco tempo, as pessoas  irão se acotovelar também no monotrilho, com a diferença de estarem a 12 metros de altura – uma solução controversa pelo risco que representa essa situação, de trem lotado e pendurado.

Como explica a matéria de EXAME, o monotrilho não mostrou em nenhum outro lugar do mundo vocação para atuar como artéria principal de transporte público em áreas densamente povoadas (caso de Paraisópolis). Os especialistas consideram o monotrilho um sistema auxiliar e de média capacidade (ideal para servir aeroportos como Congonhas). Dentro dessa avaliação, a melhor torcida que se pode fazer pela linha Ouro é que ela consiga cumprir o papel que lhe cabe: oferecer transporte seguro, rápido e cômodo, sem criar expectativas e gastos além do limite.

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