A mulher-maravilha e o empoderamento feminino

O filme Mulher-Maravilha é uma grata surpresa. No último final de semana ultrapassou os 700 milhões de dólares de faturamento e já é um campeão de audiência entre os filmes de super-heróis de todos os tempos. É também um sucesso de público e de crítica.

Mais ainda, é o filme de maior bilheteria já dirigido por uma mulher, Pat Jenkins. Gal Gadot, atriz israelense que serviu por 2 anos no exército do país, faz uma magnífica Mulher-Maravilha. O roteiro é criativo, a direção eficiente e a história cativante. Em um universo dominado maciçamente por personagens masculinos está fazendo história e sendo louvado como um símbolo do movimento feminista.

Finaliza um semestre em que o tema da mulher no mundo teve muitos episódios surpreendentes. No dia 8 de março, dia internacional da mulher, uma estátua de uma menina, em pose atrevida, foi inaugurada em Nova York bem em frente ao famoso charging bull, símbolo da bolsa americana e do capitalismo mundial.

A Fearless Girl foi criada por Lizzie Wilson e Tali Gumbiner, dupla de publicitárias da McCann, a pedido da State Street Global Advisors, que se define como uma empresa de investimento com viés responsável e social. A companhia tem um fundo que investe em empresas com mulheres na liderança. A motivação da campanha foi chamar a atenção do mundo para o esforço e as dificuldades em aumentar a presença das mulheres no mundo dos negócios.

A solução não poderia ser mais feliz. Uma garotinha desafiando o touro. A escultura foi feita em bronze por uma artista chamada Kristen Visbal. Virou uma atração turística imediata e a mensagem-imagem correu o mundo. Foi a sensação do Festival de Publicidade de Cannes. Ganhou 4 Grand-Prix, o prêmio máximo do evento. A prefeitura de Nova York havia dado uma autorização temporária para a instalação. Já renovou por 1 ano e, por mim, ficaria para sempre no lugar. É também um sucesso de púbico e crítica, concebido e esculpido por mulheres e com uma mulher no papel principal.

Um outro episódio rumoroso foi, e está sendo, a participação de Arianna Huffington no evento da saída do CEO do Uber, Travis Kalanick. Arianna, conhecida por ter fundada o portal de notícias Huffington Post, é conselheira da empresa e foi fundamental para convencer Travis a não brigar com os investidores e renunciar ao posto.

No meio da confusão, um acontecimento curioso e insólito marcou a transição. Durante uma reunião de conselho, logo após a saída de Travis, Arianna defendia que “há dados que mostram que, quando há uma mulher no conselho, é mais provável que o conselho tenha mais mulheres”. Estava anunciando a entrada de uma nova conselheira, Wan Ling Martello, VP da Nestlé para a Ásia. Foi interrompida por um comentário jocoso de David Bonderman, também conselheiro e sócio da TPG, um dos principais investidores do serviço. David disse que: “na verdade, o que isso mostra é que é provável que vai ter mais falatório”. O comentário, feito no auge da crise de credibilidade da companhia, gerou fortes reações e o conselheiro renunciou ao cargo.

Arianna, com o conflito, viu seu papel no conselho crescer. Reportagens recentes dão conta de que ela está exercendo uma função essencial na arrumação dos desarranjos do Uber. Em entrevista recente ao Financial Times ela assume o protagonismo afirmando que o objetivo não é apenas consertar o Uber, mas sim a cultura sistêmica do Vale do Silício, em que o domínio masculino é avassalador.

O incidente disparou discussões na mídia e nas redes sociais sobre o comportamento de homens mulheres em reuniões de negócios. Um estudo da Universidade de Princeton, de 2012, sustenta que os homens falam muito mais que as mulheres e as interrompem muito mais vezes. Para provar o ponto, a filial brasileira da agência BETC criou um aplicativo chamado “Woman Interrupted”, que conta o número de vezes que, em uma reunião, uma mulher é interrompida por um homem. Gal Barradas, brilhante publicitária e co-CEO da agência afirmou: “o aplicativo é uma forma de mostrarmos que, na verdade, a interrupção é real e alarmante”.

A questão está longe de ser unanimidade mesmo entre as mulheres. Lucy Kellaway, articulista do Financial Times, em coluna reproduzida localmente pelo jornal Valor Econômico, mesmo reconhecendo que os homens interrompem frequentemente as mulheres, diz que a solução não é reprimi-los radicalmente: “Se todos os homens forem proibidos de interromper as mulheres, eles não prestarão mais atenção ao que elas dizem, e sim vão desligar completamente”.

São sinais claros de que a questão da participação das mulheres na liderança dos negócios e o empoderamento feminino são temas fundamentais do nosso tempo. Confesso que não gosto da palavra empoderamento. Já não gostava do original inglês: “empowerment”. Gosto menos ainda da versão em português. Carrega o significado de uma força externa concedida por outros. Prefiro mais a qualidade que as criadoras da Fearless Girl atribuíram a ela, segundo entrevista ao periódico Meio&Mensagem: “queríamos que ela tivesse essa confiança destemida das crianças”.

Obviamente, quem deve escolher como querem ser qualificadas são as próprias mulheres. A Mulher-Maravilha pode dizer que foi empoderada. Seus poderes são reais (na ficção, claro) e transferidos por seu pai, Zeus. No Olimpo, os poderes eram outorgados pelos deuses. Na terra presente, a potência é criada e concebida no relacionamento com pares, amigos e amores. Uma transferência horizontal de confiança e convicção.

Eu, que acredito piamente que o mundo ficará muito melhor com mais mulheres em posições de liderança, gostaria de vê-las, cada vez mais, destemidamente confiantes.

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