O duro jogo entre Fazenda e Planalto

Os dados iniciais do segundo trimestre parecem dar algum alento para um momento politicamente conturbado. A indústria, o comércio e os serviços mostraram expansão na margem em abril, abrindo a expectativa de que, talvez, os números um pouco piores de maio e junho possam ser compensados em parte pelo começo de trimestre mais positivo.

Ainda é cedo para qualquer comemoração, pois os riscos políticos ainda estão longe de acabar e permanecem conosco ao longo do segundo semestre, mas não deixa de ser interessante, por exemplo, que as vendas de automóveis sigam com forte crescimento na metade inicial de junho. De fato, aquela percepção de que crise política não atinja tanto a economia pode acontecer.

Terminando o trimestre em um tom mais ameno, o mercado fica menos preocupado com os acontecimentos recentes. No final, seguirá sendo verdade que é irrelevante se o governo seguirá com Temer ou não, mas sim se a agenda minimamente continuará em vigor, especialmente considerando que muito já foi feito até agora.

Assusta, de qualquer maneira, pensar que o embate entre Presidência e Fazenda lembra também os derradeiros momentos de Sarney. O velho PMDB cooptado de alianças para se manter no poder mandava às favas qualquer necessidade de ajuste na economia, o que ficou claro no Plano Cruzado em que o ajuste fiscal não foi feito para que os governadores do partido fossem eleitos em 1986. A estratégia deu certo, mas às custas de enterrar de vez um plano que, de qualquer maneira, tinha muitas falhas de concepção e se dependurava estritamente no ajuste fiscal.

Estamos de novo amarrados na necessidade de um ajuste fiscal e nas mãos de um partido que não tem pudores em negociar sua permanência no poder. O embate entre Temer e Meirelles já começou com o Executivo tentando toda sorte de medidas velhas e ineficientes para ajustar a economia no curto prazo.

Para nossa sorte, no governo Sarney a economia estava desmoralizada e não havia tantos compliances como hoje. Já havia ocorrido a moratória em 1987, a hiperinflação era dada como caso perdido e pressões externas em uma economia estritamente fechada e sem interesse em atrair investimentos externos eram irrelevantes. A sociedade também não era conectada como hoje dificultando a pressão sobre o governo. Ao mesmo tempo, a elite econômica tinha receio da volta dos militares, que tinham saído há poucos anos apenas.

Temer tem muito mais a perder se Meirelles sair, com chances finalmente de debandada de outros partidos. E o interesse político do atual Ministro da Fazenda é conhecido e não existia nos ministros da economia da era Sarney. Há, assim, um abraço de afogados entre a Fazenda e o Planalto que ajuda o país a não afundar ainda mais, mas ao mesmo tempo não permite que as reformas avancem como deveriam.

Sem a tensão das ruas para piorar, pois parece ser interesse das lideranças dos dois lados continuar tudo como está, viveremos dois anos amargos, com elevada chance de nova tempestade eleitoral. Enquanto isso, o que ainda dá para fazer na economia?

Agora em junho, a discussão sobre a meta de inflação estará na pauta. Não faz sentido fazer outra coisa que não baixar a meta para 2019, mesmo que em ritmo menor do que poderia ser. Algo como 4,25% ao invés dos 4,5% esperados ou talvez um corte para 4% com ampliação da banda para 2 pontos percentuais. Enfim, há opções melhores do que nada fazer nesse momento na conjectura de que o fiscal está todo perdido. Faz parte da boa agenda deixada para o próximo presidente seguir na busca da queda da meta. Se algo ocorrer no meio do caminho, basta mudar a meta como já foi feito lá atrás no ciclo inicial de Lula em 2003.

A reforma trabalhista deve passar e mesmo com ajustes que venham depois por MPs, será positiva em um momento de mercado de trabalho em baixa. Soluções trabalhistas mais rápidas são importantes para ajustes mais rápidos no emprego em momentos de crise. Vale dizer também que a agenda da reforma microeconômica deve continuar em andamento no trabalho de João Pinho de Mello.

O plano B da reforma da previdência já deve estar sendo burilado na Fazenda na sequência da não aprovação ou continuidade da reforma em andamento. Será um tapa buraco, mas é o que há disponível depois do estrago de maio.

É na força da equipe em cima do Executivo que essa boa agenda deve permanecer em detrimento de esquisitices como a diminuição do imposto de renda para a classe média. É verdade que outras bizarrices ainda aparecem como um novo Refis e bondades vindas dos BNDES para os estados. São vazamentos que não devem agradar a equipe econômica, mas faz parte da necessidade de sustentação do presidente, infelizmente. Isso ajuda no clima de amargor que está sendo criado.

Infelizmente, a ponte que se construía foi perdida, mas não significa que se deva ignorar o que já se fez e o que se pode fazer, com Temer ou sem Temer. O duro é perceber que o pouco que se conquistou pode ser jogado fora na eleição do ano que vem.

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