A invasão brasileira no South by Southwest

Vanessa Mathias*

A capital dos publicitários, marqueteiros, geeks e criativos brasileiros mudou de endereço na última semana: Austin, no Texas. A presença dos brasileiros virou assunto no South by Southwest (SXSW), o maior festival de arte, tecnologia e inovação do planeta, que aconteceu entre 10 e 19 de março. O país é o terceiro em representatividade, atrás dos Estados Unidos e Reino Unido. Nas ruas, nas festas, nos auditórios, no palcos e nos espaços de negócios do South by Southwest sempre há um brasileiro marcando presença.

A participação do Brasil no evento, que teve sua primeira edição em 1987, começou a crescer em 2014, mas o aumento do interesse entre 2016 e 2017 chama a atenção. Ano passado, 601 brasileiros estiveram no SXSW. Na edição atual mais de 1100 participantes tinham marcado o quadradinho de nacionalidade brasileira na ficha de inscrição.

Em 10 dias, o SXSW reúne o que há de mais inovador no campo das artes e da tecnologia, e a representatividade do país no evento sinaliza que alguns clichês sobre a nação do futebol podem não passar disso — de clichês. Tendências, é isso que o SXSW revela. E os brasileiros estão atentos a elas com o ânimo e a expectativa que alguns diriam que, “em se tratando de Brasil”, só seria dedicado a uma partida de futebol.

Seja nos palcos o nas plateias de palestras, os brasileiros têm sido rápidos em compreender e se adaptar às tendências apresentadas no SXSW. Assim, ocupam cada vez mais espaço na programação oficial do evento, representando o país no quadro de palestrantes, no time de mentores e nos espaços de negócios, onde olhos de investidores exigentes brilham diante da capacidade inovadora apresentada.

Parte desse sucesso é devido à Agência Brasileira de Promoção de Exportações do Brasil (APEX) — ao todo 68 empresas foram incentivadas a participar do evento, iniciativa ancorada no sucesso dos negócios gerados nas participações anteriores.

O SXSW também faz a sua parte, incentivando empreendedores brasileiros, como o empresário baiano Mauro Castro. Especialista em ambientes 3D, ele idealizou o Arte Aumentada, uma proposta de espalhar obras de artes virtuais em espaços urbanos utilizando a tecnologia de realidade aumentada. Para Castro, estar entre projetos tão inovadores deu a segurança que ele possui um produto maduro em mãos. “O projeto estava exposto lado a lado com as ideias mais inovadoras do mundo. Lá estavam a Texas Droids e suas réplicas impecáveis dos droids de Starwars, R2D2 e C3PO. Ainda na área da robótica, vimos um robô cujo corpo era feito de tambores de bateria e que fez uma bela apresentação musical tocando ao lado de um violinista”, diz.

Em um workshop, Elisa Gijsen, da rede de agências de publicidade e empresas criativas FLAGCX, discutiu com o neurocientista do MIT e artista Adam Haar Horowitz sobre como ocorre o processo criativo e sobre como alguns métodos da neurociência podem ser usados para estimular novos insights. Em uma discussão sobre moda, o consultor e designer Evilásio Miranda discutiu estratégias e ferramentas para que a moda independente tenha alcance global.

A curadoria do festival também convidou nove bandas brasileiras para levar seu talento a Austin. Elas realizaram shows e tiveram uma oportunidade única de tocar em um evento dominado pela diversidade, apresentando seus trabalhos para pessoas de culturas distintas — e, de quebra, discutindo o futuro da música nas conferências.

Em palcos bem diferentes, também a convite da curadoria do SXSW, nomes que já são referência no Brasil, como Wagner Moura e Alice Braga, e outros não tão conhecidos levaram suas visões a onze painéis, debates e palestras da programação oficial. Coroando a participação brasileira na agenda oficial do SXSW, dois profissionais da indústria audiovisual brasileira foram convidados a conduzir mentorias no SWSW: Igor Kupstas, da O2 Filmes, e Felipe Braga, da produtora Los Bragas.

Brasil exportando tecnologia

Todo o frisson em torno da participação brasileira nos dez dias do SXSW pode ser passageira, mas os negócios que serão gerados no evento têm muito chão pela frente. Conforme o histórico das empresas que vêm ao festival, da rede de contatos estabelecida no evento, fecham-se contratos e abrem-se portas. É o que espera Fernanda Daudt, da empresa de bolsas Mole Bags: “Vim aqui, principalmente, para abrir um mercado em que não atuo hoje, procurando revendedores americanos”.

Há empresas de longa história, como a Opus, uma produtora de eventos que tem uma proposta de plataforma digital. Outras empresas são mais novas, como a Loox, que nasceu com a popularização dos óculos para visualização de vídeos 360 e, além de criar experiências usando essa tecnologia, fabrica os óculos panorâmicos, empenhando-se para que o equipamento seja cada vez mais acessível.

Algumas das tecnologias no espaço da APEX chamam a atenção pela capacidade de mexer com mercados. O Biosoftness, por exemplo, é um spray que mantém as roupas limpas por mais tempo graças à ação de nanopartículas biodegradáveis com ação antifúngica e antibacteriano. O produto já é uma evolução do que foi lançado no SXSW 2016, a versão anterior era um amaciante com as mesmas propriedades.

Outra inovação que está retornando ao SXSW com apoio da APEX é o Lemonade App, um marketplace de conteúdos interativos. Com o app, as experiências criadas por uma marca podem ser publicadas através do smartphone com tecnologia de geofencing, beacons ou realidade aumentada. Thiago Krieck, fundador e CEO, comentou que no SXSW ele pode conhecer pessoas que não teria acesso de outra forma — durante a entrevista ele falava, por exemplo, com um representante da Universal Studios.

No momento que o festival se internacionaliza cada vez mais, vimos os brasileiros saindo da cadeira de participantes para ocupar mesas, painéis e palcos. É um alívio perceber que, quando se trata de mentes criativas, o Brasil não perde para ninguém.

*Com a colaboração de Renata Lea

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