O Caminho do Coração – seja a fênix da própria Jornada

Do que é necessário abrir mão para seguir uma vida com mais sentido? Segue uma reflexão interessante sobre jornada autêntica e propósito de vida.

“Deixe-se ser guiado silenciosamente pela estranha atração
daquilo que você realmente ama. Isso não o levará ao erro.”
| Rumi

Estudando Platão recentemente, uma passagem super interessante sobre a vida do grande filósofo me chamou atenção. Platão, assim como muitos de nós, também  viveu seu período de transição. Uma transição marcante que o colocou frente a frente com seu propósito de vida.

Nascido em uma nobre família ateniense, dedicou boa parte de sua juventude às artes; pintura, música e principalmente poesia – escrevendo uma vasta obra entre epopéias, tragédias e até comédias de humor refinado. Aos 20 e poucos anos conheceu Sócrates, de quem seria discípulo até a morte do Mestre. O caminho de ambos foi marcado por uma grande sintonia e uma sublime parceria entre mestre e discípulo. Em contato com a filosofia socrática, Platão começou a questionar toda sua obra produzida até então, julgando que seus textos poéticos estavam muito aquém do Conhecimento que começava a vislumbrar. Olhava sua produção e não mais se reconhecia em suas próprias palavras. Um belo dia tomou uma decisão que marcaria para sempre sua vida!

Convocou seu grupo de conhecidos para um festivo banquete – evento que fazia com frequência. Esperou que todos se satisfizessem de comida, bebida e diversão, e então chamou atenção para si. Para o espanto de todos que achavam que Platão declamaria alguma de suas novas poesias, ele comunicou que aquele seria o último encontro daquele gênero e que dali em diante, sua vida seria totalmente dedicada a filosofia e à busca do Conhecimento, não mais à poesia. Encerrou a noite convidando aqueles que quisessem apoiar sua nova jornada que caminhassem para um canto da casa onde testemunhariam um grande momento. Platão queimaria TODOS os textos produzidos até então. Revoltados com a decisão de atear fogo em tão bela obra, os amigos saíram de sua casa afim de não serem cúmplices da suposta “loucura”. Apenas dois companheiros se solidarizaram e testemunharam o momento que marcava definitivamente a transição do artista para aquele que seria um dos maiores filósofos da Humanidade.

“O poeta, sem hesitação, tomou um facho em chamas e ateou fogo aos papiros, pronunciando as palavras: “Vulcano* vem! Platão precisa de ti!”. Impassível, demonstrando uma serenidade a toda prova, sentiu uma transcendente paz interior. Havia encontrado o seu caminho.” | Stella Telles V. Brazil citando trecho do livro “Os Grandes Iniciados” de Edouard Schuré.

Platão rompeu com sua jornada até aquele momento para escalar alguns degraus, alinhando-se com aquilo que veio para experienciar. Estava tão convicto da necessidade de transição que não deixou pedra sobre pedra, queimando aquilo que não estava mais em sintonia com seu propósito. Colocou-se assim frente a frente com seu destino a cumprir, e em um movimento de fênix de sua própria jornada, alinhou seu talento na arte de escrever com a filosofia, mais harmonizada aos seus reais anseios.

Inicialmente escreveu textos com base nos ensinamento recebidos de Sócrates, aliás, somente assim conhecemos a grande obra do Mestre – Sócrates não escreveu uma palavra sequer em vida. Em um segundo momento, abriu os horizontes para seu próprio pensamento, transbordando sua visão autoral. Deixou um dos maiores legados filosóficos que o mundo conheceu, sua obra marcou a expansão do pensamento humano, não apenas por seus postulados como também pelo compartilhamento do pensamento socrático.

Pensando na transição de vida de Platão e no alinhamento com seu propósito, volto aos dias de hoje, onde nunca falamos tanto dessa busca. Para muitos essa jornada tem sido suave e harmônica, para tantos outros, ela vem em forma de cobrança – como uma exigência da contemporaneidade que quase asfixia. Então, para entender um pouco mais sobre o conceito de Propósito e ancorar a matéria nos nossos dias, achei interessante conversar com um especialista no assunto; André Camargo – escritor e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela USP e que hoje trabalha com coaching de Propósito e Mudança de Vida. Compartilho o interessante bate-papo que tive com o André, ele nos traz várias pérolas, não só para reflexão como para ação.

Começo perguntando o que para ele significa o conceito Propósito:

“Para mim, o propósito de vida é fundamentalmente uma potência, uma intencionalidade. É uma força que, quando canalizada, leva aquele Ser a manifestar sua essência, desdobrando-se a partir de si, de dentro para fora. Desde que, naturalmente, o processo todo seja nutrido pelas condições adequadas. Cada organismo precisa ter suas necessidades existenciais atendidas a fim de prosperar.” E emenda “O propósito de cada Ser é seu centro de vitalidade, sua reserva de energia. Quando estamos conectados à ele, nos sentimos em casa, onde quer que a gente esteja. Temos ânimo e entusiasmo para seguir em frente, mesmo nas condições mais difíceis. Se estamos desconectados, porém, nos sentimos vazios, perdidos e inautênticos.”

E segui nosso papo perguntando: André, pra você, a busca pelo Propósito é uma busca fácil? O que ela requer?

“A maior alegria não está no final da jornada, mas em cada passo. A maior alegria é se perceber em um caminho que te permite descobrir sempre um pouco mais a respeito de quem você é, qual é seu papel e lugar na dança dos fenômenos. Então, basta estar no caminho, no seu caminho, que o coração se enche de alegria; não precisa chegar. A busca tem vários requisitos, como sensibilidade e perseverança, mas o mais importante, sem dúvida, é a Coragem. Coragem significa ‘agir a partir do coração’ (cuore + agere). Viver nosso propósito é viver a partir do coração. É ter a coragem de ser e de se tornar quem você é.”

Você acredita que todos nascemos com um?

“A resposta mais honesta é: não sei. Eu também ando me fazendo essa pergunta. É certo que nascemos singulares. Com disposições únicas, herdadas da ancestralidade, do processo de gestação, do inconsciente coletivo, dos desejos dos pais ou de vidas passadas. Pessoalmente, creio que nascemos com sementes únicas de realização, que vão simultaneamente se constituindo e se revelando, como em um processo quântico, conforme se desenrola nossa história de vida.”

Seguindo pergunto sobre os benefícios que o indivíduo experimenta quando encontra seu propósito. Ele responde:

“Acho que a busca pelo propósito é um processo criativo. E é um processo que não tem ponto de chegada. Quando a gente se dedica a essa investigação, a gente vai aprofundando, em níveis cada vez mais sutis, o que faz nossa alma vibrar. Gosto de pensar na busca pelo propósito não como a tentativa de encontrar uma resposta, mas como um jeito de viver. O benefício de estar perfeitamente conectado com seu propósito é a chance de viver a vida em sua máxima potência.”

Por que você acha que atualmente estamos falando tanto sobre o assunto? Qual é o impacto social gerado quando vários indivíduos encontram seu propósito – se é que, para você, esse impacto existe?

“Eu acho que o mundo de hoje, de tanta tecnologia, de tanta excitação, tanto som e tanta fúria, nos deixa ansiando com sofreguidão por um sentido maior. As pessoas estão falando tanto sobre isso porque as coisas não estão fazendo sentido. Acho trágico, por um lado, tantas pessoas desconectadas de si mesmas. Por outro lado, estarmos trazendo à consciência essa questão me parece um amadurecimento coletivo super importante. O impacto potencial de co-criarmos uma cultura de auto-realização a serviço da Vida pode ser gigantesco. Um mundo de pessoas conectadas com a própria verdade é um mundo de pessoas que se sentem vivas e vibrantes nas mais variadas circunstâncias. Mesmo em meio ao caos, à tristeza, à raiva e à perda… É um impacto e tanto.”

E encerra dizendo: “A dimensão do propósito vai além do nível individual. É uma potência que se manifesta nas relações, nas comunidades, em diferentes projetos e parcerias. Cada encontro dá nascimento a potências, a hologramas de possibilidades. Cabe a nós alimentar caminhos que tenham um coração.”

Voltando na história que deu início ao texto, foi justamente o que aconteceu com o alinhamento de Platão ao seu propósito e destino a cumprir. Sua obra, e através dele a de seu mestre Sócrates, transbordaram para o coletivo e se perpetuam até os dias de hoje em forma de um enorme legado.

Relembrando a passagem marcante e entusiasta que o filósofo experienciou ao se tornar a fênix de sua própria jornada, fico me questionando sobre os “livros” que tenho vontade de queimar para evoluir… Quantos de nós não queríamos evocar Vulcano e com seu testemunho queimar o que não faz mais sentido? O que temos que queimar para seguir? O que temos que abrir mão? Talvez não nossa obra passada, mas sim comportamentos e pensamentos negativos, medos, falta de confiança, ambientes e pessoas não mais compatíveis com a nossa jornada, entre tantos outros fatores que impedem nossa escalada evolutiva e que somente cada um de nós os conhece.
O alinhamento com aquilo que viemos fazer requer a Coragem de Ser, como o André comentou tão bem, essa Coragem que liberta e nos faz trilhar caminhos que tenham um coração… penso assim, como André e Platão!

*Hefesto/Vulcano – Deus do Fogo

Recomendamos também outros posts sobre o tema:

-Você encontrou o seu propósito?

-Propósito e motivação. Como encontrar satisfação no trabalho?

Por Luah Galvão

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Idealizadores do Walk and Talk, Luah Galvão e Danilo España, realizaram 3 projetos. O primeiro foi uma Volta ao Mundo por mais de 2 anos em que visitaram 28 países nos 5 continentes – para entender o que Motiva pessoas das mais variadas raças, credos, culturas e cores. O segundo foi caminhar os 800 km do Caminho de Compostela na Espanha, entrevistando peregrinos sobre o sentido da Superação. E recentemente voltaram da Expedição Perú, onde o sentido da resiliência foi a grande busca do casal. Agora que estão de volta ao Brasil compartilham suas descobertas através de textos e histórias inspiradoras para esse e outros veículos de relevância, assim como em palestras e workshops por todo o Brasil. Descubra mais sobre o projeto: www.walkandtalk.com.br. Conheça também a página no Facebook.

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  1. Andre Luiz Silva Teixeira

    Meus queridos!
    Muito lindo o texto de vocês. O caminho do coração passa por tantas jornadas que às vezes nos esquecemos de olhar para elas. E traçar uma linha entre cada uma para ver a história que criamos.
    Queimar os livros (etapas percorridas), nos permite deixar os fardos desnecessários.
    Gratidão por tanta Luz que nos trazem!
    Um beijo no coração de vocês!