A solução é mais política, e não menos

Pesquisa feita em 2016 pela organização GfK Verein mediu a reputação dos políticos pelo mundo. Empatamos com França e Espanha na última colocação, com apenas 6% dos brasileiros afirmando que confiam em seus políticos. A baixíssima credibilidade de nossos políticos também é compartilhada em outros países, alguns de primeiro mundo. Políticos contam com apoio de somente 12% entre os japoneses e de 14% entre os alemães.

Em 2015 o Datafolha mostrou que 71% dos brasileiros não têm partido de preferência. É o maior percentual da série, iniciada em 1989. Em 2014, o mesmo instituto de pesquisa mostrou que o Congresso Nacional e os partidos políticos são as duas instituições menos confiáveis, de acordo com os brasileiros.

São espantosos o descaso do mundo político para com o cidadão e a falta de conexão entre um e outro. É igualmente assustador o desinteresse do cidadão pela coisa política. Cada vez mais vemos gente orgulhosamente bradando que despreza todos os partidos políticos. São bonitos o patriotismo, o senso cívico e a repulsa à corrupção, esta que, finalmente, está dando as caras por aí na temática do cotidiano.

Em 2015, segundo nós próprios e o Datafolha, pela primeira vez a corrupção foi considerada o principal problema do país. No entanto, o fortalecimento das instituições, inclusive dos partidos políticos, é igualmente interessante para o despertar político de um país. Afinal, são os partidos que conectam cidadãos com pensamentos semelhantes. Através deles conseguimos identificar e fortalecer correntes prevalecentes na sociedade para que, posteriormente, o embate eleitoral decida quais ideais merecem ser transformados em políticas públicas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, existe posicionamento partidário. Em níveis local e estadual, a força partidária é ainda maior e mais clara. Existem estados conservadores que há décadas são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto. Já outros, escolhem de maneira previsível candidatos mais liberais. Em eleições presidenciais tem-se maior alternância e menos previsibilidade por conta de algumas variáveis, especialmente o ambiente econômico, o posicionamento dos eleitores independentes (cerca de 38% do total) e o cansaço natural com o statu quo. Apesar da insatisfação do americano médio com a política, ilustrada pela vitória do outsider Donald Trump, a força do partido, o embate de ideologias e o posicionamento em assuntos controversos existem.

Sim, vivemos em um país completamente diferente dos Estados Unidos. Economia e empregos podem até ser pautas compartilhadas em ambas as eleições, mas ainda discutimos a economia do dia a dia, o combate à fome, a capacidade de pagar as prestações da geladeira. Ainda não estamos no nível de serviço público para discussões densas, política e eleitoralmente interessantes, sobre temas que não sejam urgentes.

Posicionamentos firmes sobre assuntos não tão claros, ou que não são de vida ou morte, assustam e afastam o eleitor. Quem se lembra do senador Aécio Neves anunciando o brilhante Armínio Fraga como ministro da Fazenda? Ou de Marina Silva anunciando em rede nacional que daria autonomia total e funcional ao Banco Central? Apesar de corretas, ambas são medidas que trazem mais dúvidas que certezas ao eleitor médio.

A imensa dificuldade de levar o eleitor para um debate aprofundado estraçalha a motivação dos partidos em se posicionarem, como fizeram Aécio e Marina. Quem é que consegue cravar as diferenças ideológicas entre PHS, PSL e PTN? Ou defender a necessidade de se criar novas legendas, como o Partido Pirata, a Ação Libertadora Nacional ou o Partido Humanista, atualmente coletando assinaturas para dar entrada no Tribunal Superior Eleitoral?

Partidos, infelizmente, viraram apenas bons negócios. O eleitorado sabe e continua, ciclo após ciclo, apostando no sebastianismo e votando de maneira personalista. Perde o país, que joga fora a imensa chance de fortalecer seus canais de diálogo; perde o eleitor, carente de representatividade; e perdem os políticos, cada vez mais descartáveis por conta de seu comportamento distante. A imprensa também tem sua parcela de culpa, pois demoniza toda e qualquer atitude política.

Ganha quem consegue se descolar da política e comunicar-se de maneira minimamente eficaz com o eleitor, cada vez mais independente, como o recém-empossado prefeito de São Paulo, João Doria. Em seus primeiros dois meses no cargo, conseguiu passar a imagem de trabalhador e responsável. Doria sabe que botões apertar para ganhar as manchetes e encantar os eleitores. Acorda cedo, grava vídeos, viaja para conversar com investidores e com frequência critica o ex-presidente Lula e o PT. No Bom Dia São Paulo, há poucos dias, fez algo impensável: admitiu que a Prefeitura falhou na organização dos blocos de rua e pediu desculpas!

Ainda estamos nos primeiros capítulos da democracia brasileira. É inegável que nas últimas décadas tivemos inúmeros avanços econômicos, políticos, sociais e jurídicos, como o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, melhorias no ambiente de negócios, avanços sociais estatisticamente comprovados por IDH e pelo Coeficiente de Gini, reservas internacionais de primeiro mundo, a Operação Lava-Jato e o teto de gastos recém-aprovado pelo Congresso Nacional. Entretanto, não podemos ficar à mercê de votos personalistas que, por sorte ou azar, acabam por eleger gênios ou bandidos. Os partidos são as “categorias de base” para nossos cargos eletivos. Precisamos cultivá-los para que a tão esperada renovação política aconteça.

Demorará décadas, talvez mais, mas um esforço conjunto precisa ser feito em direção a essa reforma, a fim de que, um dia, tenhamos poucos e bons partidos que representem a sociedade, bons e jovens talentos, com vontade de entrar na política sem medo de manchetes apressadas e irresponsáveis, e canais de diálogo modernos que ajudem na oxigenação de nomes e ideias. Além de um entendimento geral de que, mesmo imperfeitas, as soluções no Brasil sempre acontecerão através de meios-termos e muita política.

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