A força do erro, uma questão de sobrevivência

Quase sempre estamos presos à ficção de que nossa vida pode ser uma experiência previsível e planejada. Mas, na prática a experiência é muito diferente.

Na maior parte do tempo estamos presos à ficção de que nossa vida pode ser uma experiência previsível e planejada. Mas, na prática a experiência é muito diferente, para não dizer completamente oposta. Por isso, acredito que uma das principais ações a se fazer é errar mais: não a fazer o que não é correto, mas a praticar a origem da palavra, que vem do latim errare e significa andar sem rumo, vagar. Nesse lugar, inovamos.

A imprevisibilidade da vida
Apesar de termos evoluído em nossos modelos estatísticos, de planejamento e previsibilidade, uma coisa ainda continua bem evidente em nossa experiência com a vida: sua completa imprevisibilidade e ambiguidade. Porém, por mais que isso esteja evidente, ainda sustentamos a crença de que podemos prever as coisas, ou que a vida seguirá um fluxo de causa e consequência tão certo, que colheremos exatamente aquilo que plantarmos.

Obviamente, colhemos muito do que plantamos. O planejamento, foco, uma direção certa nos ajudam e seguir o caminho da vida, porém, inesperadamente, coisas acontecem: uma nova invenção é criada e, de repente, sua profissão é substituída por uma máquina; você se esforça para ter uma vida saudável, alimentação, exercícios físicos e boas horas de sono, mas uma doença incurável aparece sem nem avisar; você cria um novo produto ou serviço que os consumidores amam, em poucas semanas tem milhares de pessoas apaixonadas por ele e, sem mais nem menos, as pessoas deixam de comprá-lo; isso sem falar em guerras, atentados terroristas, crises econômicas globais, os acidentes, catástrofes naturais e a morte, o dia da nossa morte. A vida é imprevisível.

E, por mais que tenhamos experimentado alguns períodos de previsibilidade no mundo dos negócios, as crises econômicas, os movimentos de mercado, as mudanças nos estilos de consumo, as inovações tecnológicas, cada dia mais frequentes, estão aí para nos relembrar que a vida é regada pelo imprevisível.

O estranho universo paralelo das organizações
Porém, parece que quando entramos numa empresa, algo muito estranho acontece, parece que entramos num universo paralelo. Um universo onde se espera que a inovação, a diferença, a criatividade, o alto desempenho, o aprendizado rápido venha da conformidade, da execução perfeita de planos pré-definidos, do fazer certo da primeira vez. E esse é um grande desafio! Muito influenciados pela revolução industrial, nos acostumamos a esperar que as pessoas funcionem e evoluam como as máquinas. Mas, obviamente, somos bem diferentes.

Os super poderes dos humanos e o poder do erro
Os humanos possuem uma série de super poderes que são essenciais para a imprevisibilidade da vida e dos negócios. Mas, esse universo paralelo alimentado pela cultura organizacional da revolução industrial (e com uma significativa ajuda dos nossos modelos educacionais) acaba por fazer definhar esses super poderes, ao invés de liberá-los e potencializá-los.

Um desses poderes é o erro. Mais que isso, o poder de aprender e se reinventar constantemente, sendo a coragem de errar um fator essencial para experimentar a vida e todas as suas possibilidades e, constantemente, evoluir. Basta lembrar em qual período da vida evoluímos e aprendemos numa velocidade absurdamente rápida: quando iniciamos nossa vida. Quando bebês, ainda não estamos presos a fictícia loucura do medo do erro. Vamos lá, experimentamos, cheiramos, colocamos a mão, testamos, descobrimos e erramos, erramos muito, erramos quase que a todo momento. Mas, não somos completamente loucos. Vamos aprendendo também alguns limites, para não colocar nossa vida em risco. E vamos evoluindo: testando rápido, errando rápido, aprendendo e inovando sempre.

Não seria incrível podermos viver essa experiência de grande evolução como adultos? Dentro das organizações? No dia a dia do nosso trabalho? Não seria possível, assim como foi possível a muitos de nossos pais, criar um espaço que permita a experiência e o erro com segurança para promover uma explosão de evolução? Ou ainda acreditamos que é relevante repetir o ambiente escolar tradicional, onde as pessoas são ensinadas a acertar e são penalizadas por errar. E o que é certo ou errado? Uma perspectiva única e limitada da realidade, que reduz a potência do humano a pouquíssimas possibilidades?
Como líderes, educadores, pais, mais do que tudo, como pessoas interdependentes umas das outras, temos o papel imprescindível de contribuir para a liberação de potência humana das pessoas que convivem conosco. É uma questão de sobrevivência! Uma questão de evolução!

Um exercício de “errare”, para praticar em 10 minutos
Se você anda inquieto e intrigado com esse assunto ultimamente, eu gostaria de lhe convidar para um exercício de “errare” para vagarmos e evoluirmos juntos. Vai demorar menos de 10 minutos:
Pegue um caderno, uma caneta e use o cronômetro do seu celular.
Esse é um exercício de escrita. De colocar a caneta no papel e sair escrevendo a primeira coisa que vier à mente (não é para parar para pensar, organizar as ideias e colocar no papel a “ideia certa” ou a “melhor ideia”).
Para cada uma das perguntas, você vai ter 1 minuto para escrever uma resposta.
A ideia é que, ao final, você encontre um caminho possível para evoluir no errare, no caminho de evolução que precisamos trilhar juntos.

Perguntas:

  1. Em quais lugares, situações ou relações você tem experimentado o medo de errar, você sente que ali o erro não é permitido e, quando acontece, você é extremamente punido?
    (saia escrevendo, por 1 minuto)
  2. Em quais lugares, situações ou relações você sente liberdade para experimentar e errar, você sente que o erro faz parte do aprendizado e do crescimento, as pessoas lidam bem com o erro e, quando ele acontece, você se sente convidado a aprender e não a se esconder.
    (saia escrevendo, por 1 minuto)
  3. Em quais lugares, situações ou relações você não permite que os outros cometam erros? E, quando o erro acontece, você age punindo ou orientando os outros para que eles nunca mais errem?
    (saia escrevendo, por 1 minuto)
  4. Em quais lugares, situações ou relações você permite que as pessoas cometam erros e aprendam com eles? Quando o erro acontece, você lida bem e ajuda os outros a aprenderem e evoluírem com a situação?
    (saia escrevendo, por 1 minuto)
  5. Atualmente, em sua vida, o que mais lhe deixa frustrado? Quais forças ou fontes consomem sua energia e o impedem de inovar ou fazer diferente?
    (saia escrevendo, por 1 minuto)
  6. Atualmente, em sua vida, o que mais lhe deixa energizado? Quais são suas principais fontes de energia? Onde você consegue fazer a diferença, inovar, aprender?
    (saia escrevendo, por 1 minuto)
  7. Onde ou em qual aspecto da sua vida, você tem a sensação ou a intuição de que o futuro está emergindo agora? Você experimenta uma possibilidade de futuro real?
    Podem ser momentos, situações, pessoas, lugares… você não sabe explicar direito o que é, apenas sentiu.
  8. A partir de onde você está agora, o que você sente que seria sua melhor possibilidade de futuro? Sua melhor possibilidade de fazer diferente? De ser uma melhor versão de si mesmo para algum propósito relevante para você e os outros?
    Permita-se imaginar sem restrições… pode ser um desenho, um sentimento, uma frase… não precisa fazer sentido lógico.
  9. Qual seria uma única ação fácil, rápida e impactante que você poderia começar hoje para começar a experimentar esse futuro?
    Só uma ação, uma. Que seja fácil. Que você tenha total autonomia para fazer, sem pedir autorização para ninguém, mas que, ao mesmo tempo você sinta que vai gerar impacto.

 

Espero que esse exercício rápido nos ajude a começar um movimento de errare. Espero que você tenha coragem de experimentar, errar, acertar e aprender através da prática dessa única ação.
Vai que essa simples ação gere uma reação em cadeia?
Não temos como prever… ainda bem!

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