Quem disse que o mundo é justo?

Semana passada escrevi uma coluna pra lá de polêmica neste meu espaço semanal na EXAME. Falava sobre as covardias realizadas por empresas que se utilizam do marketing em rede para prometer formulas milagrosas capazes de mudar a vida das pessoas sem esforço e num passe de mágica. Imaginei que o artigo geraria alguma discussão. Gerou muita! Adorei.

É claro que sei que ao escrever artigos generalistas, como este, cometo algumas injustiças. Tenho certeza que existem muitas empresas que vendem bons produtos através do modelo de vendas diretas e que se utilizam de redes de contatos e remunerações em cascata como formas de incentivo. Foi até curioso ver que a maior parte dos profissionais que atuam em empresas assim adoraram o artigo. Na visão deles o artigo ajuda a separar o joio do trigo ao acertar em cheio as empresas que tem se tornado cada vez mais numerosas e destruído a imagem do negócio. Mas tive também criticas vorazes. E a maioria delas não era direcionada a coluna. Mirava o autor, no caso eu.

“Eduardo, eu até hoje te admirava, mas você jogou tudo por água abaixo com este artigo”, “Que decepção com você Eduardo, você devia ter vergonha de ter escrito isso”, “O Eduardo jogou a biografia dele no lixo com esse artigo”, e outros nessa linha. Claro que todos vindo de pessoas que trabalham em empresas que praticam o marketing em rede, tema da coluna. Fantástico! Até para isso aquela discussão serviu, exemplificar um tema sobre o qual venho querendo escrever ha um bom tempo: a forma egoísta como lidamos com o mundo que nos cerca.

Numa famosa tirinha de Calvin e Haroldo, geniais personagens criados pelo americano Bill Watterson, Calvin se queixa a seu tigre de pelúcia sobre algo que lhe aconteceu e deixou chateado. O tigre então lhe fala: “Calvin, o mundo não é justo”. Vem então a frase sensacional de Calvin, o menino de 7 anos da tirinha: “O problema não é o mundo ser injusto, é não ser injusto a meu favor”. Pronto! Ali, de forma lúdica, divertida e genial está descrita a forma como quase todos nós lidamos com o que nos cerca. Não estamos preocupados com o que é justo ou injusto e sim com o que nos favorece ou não.

É assim que escolhemos nossos amigos, políticos, gurus, mentores, livros e até… colunistas. Servem enquanto nos municiam de armas para fortalecer o mundo que nos favorece. Na verdade não gostamos deles, gostamos de nós mesmos. Eles são apenas um reforço útil. Até o dia em que ameaçam algo que esta debaixo de nosso guarda chuva e pronto, perdem da noite para o dia sua utilidade. “Traidores! Nunca imaginei que fariam isso comigo! Afinal, sobre meu mundo, esse hermético e perfeito, não há quem saiba mais do que eu. Na verdade sei tanto que é ingenuidade sua imaginar que o leio para aprender algo. Aprender o que já sei? Como é possível? Leio somente para mostrar para os outros o quanto sei! E por favor, na próxima vez que for escrever algo que vá contra algo que eu acredito, me avise antes para que eu não perca tempo lendo baboseiras”.

E assim vamos seguindo, raramente buscando novos conhecimentos que nos permitam evoluir como pessoas e quase sempre perseguindo artifícios que sejam capazes de tornar o mundo ainda um pouquinho mais injusto… a nosso favor.

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