Nossos filhos terão ‘trabalhabilidade’ em 2030?

Como você pode promover oportunidades de aprendizagem significativa, desenvolver competências para o Século XXI, implementar metodologias inovadoras

Como você educador pode promover oportunidades de aprendizagem significativa, desenvolver competências para o Século XXI, implementar metodologias inovadoras, repensar o tempo e os espaços escolares e fazer uso de REAs (Recursos Educacionais Abertos)?

O Instituto Crescer participou do BETT, o maior evento de tecnologia e educação da América Latina, e convidou o público a compartilhar suas ideias sobre estas questões escrevendo post-its que foram colados a um mural para fomentar o debate.

Depois de mergulhar nos pensamentos dos educadores que visitaram nosso stand, selecionei 5 visões para analisar com vocês, leitores, sob a ótica das grandes transformações pelas quais o mundo dos negócios já está passando e os impactos tecnológicos que continuarão demandando o nascimento de novos profissionais, cada vez mais distantes da revolução agrária e industrial e mais próximos da revolução digital.

Mas antes de enumerá-las, cabe uma reflexão. Nossos filhos estarão prontos para 2030? Nossas escolas estão formando profissionais para trabalhar em uma sociedade totalmente diferente da construída na era industrial?

Não me venham dizer que estamos a ‘somente’ 13 anos de chegar lá. Pare e pense o quanto assistimos de disrupções no modo em que vivemos, nos relacionamos, consumimos, estudamos e trabalhamos desde o início dos anos 2000, quando a Internet começou a invadir nossas vidas.

Apesar deste futuro estar tão perto, e diria já tão presente, nossas escolas ainda insistem em manter um modelo que prepara o aluno a seguir uma carreira linear, focada em uma única área de conhecimento e onde as habilidades técnicas são mais importantes do que as habilidades sócio-emocionais e a capacidade de criar e inovar.

Basta olhar pela janela da sala de aula para rapidamente perceber que o mundo não é mais o mesmo e o modelo pedagógico adotado na escola pré-revolução digital não faz mais nenhum sentido com o desenrolar da economia global catalisada pelas novas tecnologias.

Enfileirados, os alunos assistem entediados um professor despejar um conteúdo que não parece ter qualquer sentido para um mundo em constante ebulição. E o ambiente escolar em nada se assemelha ao ambiente corporativo, uma distância abissal.

O aprendizado bate na mesma cartilha e no bê-a-bá de uma escola que não considera a individualidade e a vocação dos alunos, forçando-os a ficar aprisionados ente paredes com pouco ou nenhum estímulo ao estudo prático e reféns de livros didáticos que repetem o mesmo currículo definido quando o propósito era formar trabalhadores dedicados a passar a vida inteira no mesmo emprego.

O alerta está dado. A automação da força de trabalho em funções repetitivas, que podem ser substituídas pelas máquinas, exterminará o profissional que desenvolver apenas competências facilmente executadas por robôs. Será mais valorizado quem tiver criatividade, souber se relacionar socialmente e associe saberes em diferentes campos.

Estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) realizado no ano passado concluiu que 65% das crianças de hoje trabalharão em profissões que nem mesmo ainda existem. Outro aspecto: o emprego será substituído pelo trabalho, emergindo o conceito de ‘trabalhabilidade’ em detrimento da ‘empregabilidade’.

O sujeito precisará estar pronto para exercer diversas funções em inúmeros projetos ao mesmo tempo, sem ter que bater ponto ou vestir o uniforme da empresa. Com maior autonomia, poderá trabalhar no que tem paixão e faz melhor, gerando renda a partir de várias fontes.

Por conta das incessantes mudanças nas relações de trabalho e o surgimento de novas profissões, o mais importante será aprender a aprender, já que os anos de estudo não estarão mais concentrados entre a infância e a juventude. A vida de estudante não terá mais prazo de validade.

Pergunto ao leitor: nossas escolas estão preparadas para desenvolver a ‘trabalhabilidade’ em nossos alunos? Estão prontas para formar os profissionais que o mercado irá demandar com o avanço da Inteligência Artificial? Estamos educando nossas crianças e jovens para ser criativos ou para continuar apenas a “apertar parafusos”?

Algumas respostas para estas e as perguntas feitas aos nossos visitantes no BETT estão nestas 5 visões abaixo:

1 – Educar é muito mais do que ensinar a ler e escrever. Na visão de Gabriela Fogaça Beltran, é essencial “promover uma educação com carinho e compaixão. Ir além do ‘ensinar’, criar grandes pessoas em todas as áreas da vida”.

2 – O aluno precisa desenvolver sua força criativa para garantir sua carreira no futuro.  Como bem pontuou Tânia de Souza, “promover um aprendizado significativo é estimular a criatividade no sujeito, onde se possa ver o sentido e motivação na construção do conhecimento”.

3 – Saber resolver problemas é uma competência indispensável, o que foi lembrado por Jorge Raniene: “Através da observação do meio no qual o aluno está inserido, instigando o seu potencial criativo para ajudar a encontrar a solução de problemas”.

4 – O aprendizado prático, que permita ao aluno se desenvolver enfrentando situações que serão parte da vida profissional, também é fundamental, um ponto sublinhado por Leandro Lolo, que sugeriu: “levar a aprendizagem para o mundo, para fora da sala de aula, usando vivências cotidianas para construir conhecimento junto com os educandos”.

5 – E por fim, mas não menos importante, eu diria que o alicerce para construir uma nova escola conectada com os desafios profissionais do futuro: preparar o professor, visão compartilhada por Ana Paula Gasparini, que recordou que “para desenvolver as competências do século XXI nos alunos é preciso que o educador entenda a necessidade de desenvolvê-las em si próprio. Exercitar a própria criatividade, colaboração, comunidade e pensamento crítico é fundamental para que o educador possa estimular o mesmo desenvolvimento nos alunos”.

Deixe também nos comentários a sua visão de como construir uma escola adequada às demandas das novas e das próximas gerações. Cole aí seu post-it digital! ;)

Acompanhe meus outros artigos em meu blog na Exame.com:

http://exame.abril.com.br/blog/crescer-em-rede/

(*) Diretora do Instituto Crescer para a Cidadania eDoutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em tecnologias aplicadas à educação

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  1. Shigueharu Matai

    Competencia
    Conhecimento Habilidade e ATITUDE
    o problema é que muitos tentam simular este tipo de ensino nas escolas, mas é impossivel pois na vida real ele não estará em um grupo de mesmo nivel e área de conhecimento, mesma faixa etária e socio economica.
    A questão dos estagios também deve ser revista , pois não é para ser confundida como um meio de legalizar o estudante transvestido de trabalhor infantil.
    A instituição de ensino deve obrigatoriamente atuar na supervisão, muito mais para aprender o que o mercado espera dos seus alunos e assim atualizar o seu ensino.
    Ou seja não pode se resumir a um contrato de estágio sem a devida supervisão e muito menos se extender a mais de um semestre letivo.
    Alias seria acertado acabar com esta legislação de estágio e manter somente o contrato de mão de obra temporária para que não haja abusos de exploraçõa de mão de obra estudantil.
    Ou se restringir a fase de experiencia (3 meses) prevista na legislação.