A marolinha de Michel Temer

Houve um susto inicial que rapidamente se dissipou, como se as delações dos irmãos Batista não tivessem existido

O último escândalo nem completou três meses e fica a impressão de que, ao fim e ao cabo, o que chegou a parecer o apocalipse não passou de simples inconveniente sem maiores impactos sobre as perspectivas econômicas do país. A fita vendida por uma fortuna à PGR produziu apenas uma marolinha. O dólar, um dos termômetros mais sensíveis em crises, voltou a ser negociado próximo das mínimas registradas na semana anterior à divulgação das gravações.

A queda de quase 30 centavos do câmbio desde o pior momento da crise foi determinada por uma mudança para melhor das opiniões sobre o Brasil. Evidentemente as condições mundiais ajudaram, mas se o real tivesse acompanhado as flutuações de uma cesta de moedas que costuma reagir de forma parecida ao noticiário internacional, o preço do dólar deveria ter variado entre 3,07 e 3,16 reais nos últimos meses. Na prática, houve um susto inicial que rapidamente se dissipou, como se as delações dos irmãos Batista não tivessem existido.

O que dá para comemorar na conjuntura econômica?

Primeiro, o impacto imediato da crise sobre o crescimento econômico foi modesto. O IBGE ainda precisa divulgar resultados referentes aos desempenhos do comércio varejista e dos serviços para junho. Com informações parciais para estes segmentos e números fechados para indústria, mercado de trabalho, rendimentos, impostos e comércio exterior, estimo que o PIB tenha crescido 0,4% no segundo trimestre, já considerando uma “devolução” da agropecuária.

Segundo, a confiança sentiu apenas marginalmente, sugerindo que a economia deve se segurar no terceiro trimestre. Uma média de diversos termômetros do sentimento econômico está em patamar compatível com estagnação da economia. Em um mundo de expectativas diminuídas, trata-se de algo melhor do que a encomenda. Se minha estimativa de crescimento para o segundo trimestre estiver certa e o PIB ficar parado ao longo do segundo semestre, o crescimento do ano será de 0,6%. Medíocre, mas um pouco mais do que a expectativa consensual.

Terceiro, o afrouxamento da política monetária começa a se transmitir com mais clareza ao mercado de crédito. Apesar do cenário de queda da taxa de juro básica no início do ano, o prêmio cobrado em empréstimos para empresas não estava reagindo, sugerindo complicações caso a economia patinasse. No segundo trimestre o quadro mudou e os spreads caíram sensivelmente. Os juros continuam elevadíssimos e não há evidências convincentes de reação das concessões para capital de giro, supostamente associadas ao pulso da economia.

Ainda assim, a inadimplência deu uma embicada para baixo e, pelo andar da carruagem, dá para contar com condições creditícias menos restritivas para as empresas no futuro.

Quarto, a inflação segue caindo e deverá fechar o ano próxima de 3%, talvez menos, suportando a continuidade da distensão da política monetária em curso. Creio que nunca na história desse país tantos fatores contribuíram simultaneamente para o sono do dragão como recentemente. A queda não é permanente uma vez que a economia continua tão indexada quanto no passado e, principalmente, pelo fato de que o problema fiscal está longe da solução. É certo que a inflação voltará a subir mais cedo ou mais tarde, mas este é um problema para depois. Por enquanto, os juros cairão com vontade, ajudando a economia.

Desdobramentos conjunturais como estes são suficientes quando os mercados esforçam-se para ver o lado cheio do copo. O cidadão mais pessimista dirá que se preocupa com uma economia que está estagnada após uma das piores recessões da história e comemorará com parcimônia a queda livre da inflação, notando que enquanto a questão fiscal não estiver minimamente equacionada, a “espinha dorsal” da inflação permanecerá intacta.

Mudará para melhor seu cenário se a reforma da previdência passar, o que está longe de ser uma certeza, mas relativizará a alegria quando avaliar as chances eleitorais de candidatos não populistas nas eleições de 2018, dadas as opções sobre a mesa. Mais importante, aguardará roendo as unhas o dia inevitável em que a flexibilização da emenda do teto começará a ser debatida e torcerá para que o mercado esteja de bom humor neste dia, pois não há evidência de mudança da tendência de crescimento das despesas obrigatórias e quase obrigatórias.

A marolinha do lula virou Tsunami. Torçamos para que não ocorra o mesmo com a do Temer porque, se for assim, a consequência será bem mais desagradável.

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